Não espanta ver na literatura…

Não espanta ver na literatura uma coleção inumerável de relacionamentos malsucedidos, visto que, na vida, é mesmo esse o caminho natural. O que talvez seja curioso é o engenho de determinados artistas para retratar as razões do inevitável fim, quando geralmente tudo acontece obedecendo a uma sucessão banal. Ah, Nietzsche, Schopenhauer, seus misóginos! Um relacionamento termina quando se inicia o ciclo da insatisfação. Deste, o primeiro sinal já é o fim anunciado, e não é preciso ser filósofo para perceber o porquê. A natureza do lado insatisfeito é invencível, invencível. Não interessam as circunstâncias, o passado, o tempo de relação: manifestada uma única vez a tendência inata, garante-se o fim. Porque, experimentada uma vez, a insatisfação pode até cessar momentaneamente, mas voltará para destruir. É como o felino selvagem que prova pela primeira vez a carne humana: a partir deste momento, o apetite antropófago jamais o deixará.

Ou se valoriza o que há de penoso…

Não adianta: ou se valoriza o que há de penoso no passado, ou pouco dele se poderá aproveitar. O tempo não retorna, e menos ensina o que menos esforço exige para absorver. Ali onde machuca reside uma oportunidade, e só se aproveita o passado quando se assimila o paradoxo de reconhecer nele a identidade presente ao mesmo tempo que se aceita a parcela do que era, mas já se foi.

A despeito de tudo quanto se pode…

A despeito de tudo quanto se pode dizer em contrário, a literatura moderna, aproximando-se do cotidiano, algo progrediu. E se às vezes incomoda a banalidade de enredos e personagens, é certo que, nesse cenário corriqueiro, abriram-se possibilidades, e algo de novo se pôde dizer. Se a tradição anterior expandia o imaginário, a nova suscitou maior identificação com o leitor, que agora mais facilmente encontra lances de sua própria vida narrados por outro, porventura aventando possibilidades que não imaginou. Neste sentido, a literatura enriqueceu, e é bom que tenha sido assim.

Talvez não se possa tirar da vida…

Talvez não se possa tirar da vida lições mais valiosas que aquelas provenientes de uma angústia intensa e prolongada. O momento em que esta é finalmente superada constitui um marco, porque geralmente envolve um esforço interno incomum. Dá-se então o esforço e a catarse. A tensão alivia, brota um sentimento positivo, mas o ocorrido não se esquece: permanece como vivo e autêntico aprendizado, pelo qual sentiu-se na pele o encargo de aprender.