Muito se pode aprender com a forma com que esses marinheiros, caçadores e demais aventureiros narram as suas experiências. Em resumo, todas essas narrativas consistem no relato da persecução de um objetivo, que vai sendo obstaculizado por circunstâncias diversas. Às vezes, a adversidade é tamanha que o objetivo passa a ser a mera sobrevivência. Mas prossegue a narrativa sempre imbuída de um propósito claro, ao qual tudo o mais se submete. O leitor nunca hesita a respeito da importância relativa dos eventos, e compreende tudo tão claramente que se sente a viver a história. O relato, pois, literariamente logra, apresentando ao leitor uma experiência, uma vida, repleta de sentido.
Categoria: Notas
É interessante constatar como alguns destes livros…
É interessante constatar como alguns destes livros de relatos de aventuras fazem uma literatura superior à maioria dos romances ficcionais. É curioso porque, ao menos teoricamente, um relato atém-se aos fatos, isto é, sai como falto de possibilidades imaginativas. Ainda assim, é frequentemente melhor do que engenhosas construções mentais. Por quê? Decerto, não pela linguagem. Como vantagem, poder-se-ia apontar nele uma verossimilhança garantida: sendo real, mais facilmente convence. Mas quando pensamos mais um pouco, essas minúcias cedem perante o óbvio mais patente: fazer boa literatura é, essencial e simplesmente, contar uma boa história. Se a história é boa, o livro acaba por bom. Se não é boa, é inútil sustentá-la com artifícios. No fim das contas, dá-se o mesmo com os relatos e com a literatura ficcional.
Durante a rotina, é difícil recordar-se do excepcional
Durante a rotina, é difícil recordar-se do excepcional. Para relembrá-lo, a mente parece exigir silêncio e solidão. Assim que facilmente o esquece, e se não se esforça diariamente por preservar-lhe a imagem, deixa-se percebê-lo somente em instantes imprevistos, apartados, desconexos, desperdiçando o grosso dos benefícios de sua percepção. Mas é sorte que volte a lembrança e gere uma nova surpresa: assim se renova a esperança de que, desta vez, não se há de deixá-la desvanecer.
Para o espírito, não há estagnação…
Para o espírito, não há estagnação: ou evolui, ou deteriora, mesmo sem o perceber. E nada parece prejudicá-lo com mais eficácia que o passado, quando não se aprende a vencê-lo. Os exemplos são infinitos daqueles que, se não pararam no tempo, não se deixam despegar de algo que já passou. Daí que o espírito se descola da realidade, e o resultado é degeneração. Há experiências cuja intensidade, jamais revivida, parece determinar o ser. Porém, visto que a vida é movimento, a “determinação” sempre repercute, quer para o bem, quer para o mal.