É curioso de alguns rituais iniciáticos, especialmente orientais, o representarem a morte e dissolução do passado, para então oficializarem a transformação do iniciado em um novo ser. Por um lado, poder-se-ia questionar se algo assim é realmente possível. Por outro, salta aos olhos que não somente é possível, como, em boa parte dos casos, o ritual não faz senão formalizar algo que efetivamente aconteceu. Muito em razão da psicologia do século XX, costuma dar-se uma importância exagerada e indevida à infância. Em verdade, não é raro que o adulto sequer seja capaz de recordá-la, a não ser uns poucos lances isolados, vagos e irrelevantes. Outros há para os quais a infância pouco significa, — a despeito do que diriam alguns psicólogos de uma só nota, — e não representa senão um período estranho, com experiências recordáveis, mas com as quais não se consegue estabelecer identificação. Há, porém, o dia em que algo acontece, o dia inesquecível, a partir do qual não se permanece como antes: às vezes, é a partir dele que deveras se começa a viver.
Categoria: Notas
É só depois de muito tempo, e após presenciar…
É só depois de muito tempo, e após presenciar muitos rompimentos e muita frustração, que se percebe a verdade da lição: sem o idem velle, idem nolle, a amizade não prospera. E não o faz pelo bem, posto que, com o tempo, sem ele não fará senão estorvar. Quando menos se percebe, já se perdeu tempo, já se foram oportunidades, já se gastou energia e já se estagnou. Daí que não há fracasso mais previsível, quando o tempo não trata de alinhar ao velho princípio, e notá-lo é saber que há forças contra as quais não compensa lutar. Melhor, sem dúvida, é seguir os conselhos da inclinação natural, espontânea, que sem ter de gastar uma única palavra aponta a direção para a qual o espírito deve convergir.
O pudor linguístico e o pudor literário
O pudor linguístico e o pudor literário são coisas diferentes, embora, superficialmente, possam se confundir. Mas quando se analisa bem, percebe-se que há autores que possuem uma forte manifestação do primeiro, do segundo, de ambos ou de nenhum. E em cada caso específico, muito do autor se revela pelo havê-los ou não. Tomando a literatura como um todo que abrange bons e péssimos autores, o mais comum é que a falta de pudor literário seja evidência de falta de cultura; já quanto ao pudor linguístico, o mesmo não se pode dizer. O que se diz e o que se representa são coisas distintas, sendo a linguagem mero instrumento deste último, que pode ser empregado com maior ou menor intensidade, a depender da necessidade e da intenção. Linguisticamente, há impulsos que pedem expressões extremadas; do contrário, não se alcançará uma justa representação. Mas o íntimo de toda obra é anterior à linguagem, e é somente nele que se pode medir o grau de refinamento de um autor.
Se houvesse uma ciência das biografias…
Se houvesse uma ciência das biografias, mais interessante do que analisar os golpes de sorte, os imprevistos e demais determinações relevantes do destino, seria aprofundar o estudo destas conjunturas complexas muito frequentes, em que o mérito não fica de todo ausente, mas claramente não basta para justificar o sucesso alcançado, e então se aventa que este, ali, no tempo exato e na circunstância específica, “tinha de acontecer”. Outros, talvez com mais talento e maior mérito, não gozaram semelhante resultado, e então se pergunta o porquê. Tais conjunturas impressionam, e por vezes determinam uma vida inteira. Como explicá-las? A nível mundano, concretizam algo incrível, e não deixam outra impressão senão a de que o biografado nasceu para fazer o que fez.
