Todas as contradições, a desumanização e o próprio fracasso da vida de Tolstói relatados por Paul Johnson são muito tristes. Porém, tomar-lhe o relato como um resumo da vida seria imprudente: a biografia carece do testemunho literário. E, sem dúvida, a imagem que fazemos de Tolstói se transforma quando confrontamos os dois. Fica, de um lado, a aparência exterior, o ato, toda sorte de fraquezas e defeitos humanos que tendem a vir à tona quando se exige do homem a ação. Tudo isso é de se lamentar. Porém, quando lemos algumas linhas de Tolstói, percebemos haver nele algo diferente. Não se trata da genialidade literária, mas da absoluta impossibilidade que uma compreensão tão profunda da natureza humana não tenha implicado a consciência das próprias contradições, da própria desumanização e do próprio fracasso. É impossível imaginar que o Tolstói de Paul Johnson não experimentasse uma atrocíssima guerra interior. E, notando-o, somente o diabo é incapaz de empatizar.