É muito peculiar esta tendência comportamental do homem para com seus contemporâneos: ao mesmo tempo que não se impressiona, quando não despeita o verdadeiramente extraordinário, abona e encomia tudo quanto compõe a faixa que parte do medíocre ao verdadeiramente desprezível. Daí que nunca se pode confiar num julgamento coevo a respeito de nada, sob o risco de embarcar nas mais escandalosas fraudes e injustiças. Sempre é preciso aguardar que a história, despojadamente, coloque cada coisa em seu devido lugar.
Já foi notado que grandes autores…
Já foi notado que grandes autores frequentemente emergem como reações a grandes crises sociais, e que mais estimulante é o ambiente agressivo que aquele pacato, controlado, inofensivo, que não ameaça diretamente o autor e que, portanto, não promove senão inércia. Tudo isso está correto; mas falta notar que, para que a reação aconteça, é preciso haver uma educação que possibilite o notar-se a dimensão da crise, isto é, é preciso que o autor tenha claríssimos em mente os fundamentos precípuos de uma civilização, algo que lhe exige, sobretudo, distanciar-se daquela em que vive para que possa usá-la como elemento de comparação.
O que encanta na poesia provençal e nas formas fixas medievais francesas…
O que encanta na poesia provençal e nas formas fixas medievais francesas é sobretudo a sonoridade melodiosa, que só ocorre por haver em ambas um vínculo inalienável com a música, isto é, só ocorre por serem sempre as composições, se não destinadas ao canto, destinadas a serem recitadas com acompanhamento musical. Assim que ritmo e melodia, obrigatoriamente, nelas têm de se harmonizar como exigência construtiva, surtindo um efeito, ou melhor, dotando a composição da deliciosa qualidade de que a poesia moderna esforçou-se por se despojar.
O direito de incomodar
Na sociedade brasileira, o direito de incomodar prevalece sobre o direito de não ser incomodado, este fundamental para o convívio pacífico no mundo civilizado. No mundo civilizado, aquele que incomoda perde imediatamente a razão e é condenado pelo senso comum; já na selva brasileira, ai daquele que julgar-se no direito de não sofrer distúrbios frequentes! Diz-se que, em Tóquio, o que mais espanta é o silêncio que permeia a grande movimentação das avenidas, a mudez das construções enormes, o ruído que não emana do comércio. Um cão brasileiro, em Tóquio, estaria destinado a enlouquecer.