O início da vida adulta é uma fase crítica porque o jovem se vê pressionado a tomar decisões de consequências duradouras sem que se tenha decidido com firmeza sobre elas ou, nalguns casos, sem que tenha personalidade o suficiente para assumir as próprias decisões. A isso soma-se o caso frequente de dependência financeira, que acaba acarretando uma submissão a conselhos e opiniões. Assim, quase sempre cede à suposta “sabedoria dos mais velhos”, quando esta em verdade é-lhe útil apenas enquanto esteja em conformidade com aquilo que verdadeiramente deseja para si. Do contrário, tais conselhos serão somente o empurrão ao abismo que lhe causará o mais severo arrependimento que já experimentou — arrependimento, porém, necessário para que amadureça, e perceba só valer a pena uma vida em que as consequências sofridas são frutos de escolhas pessoais. O divertido, em suma, é que na maioria dos casos bastariam uns poucos anos a mais para que as decisões fossem tomadas de maneira mais sensata; mas não, por algum motivo é preciso tomá-las precipitadamente, talvez por ser o próprio erro fundamental.
Evita-se muita frustração lembrando-se…
Evita-se muita frustração lembrando-se de que a arte também é majoritariamente constituída de homens medíocres, com inclinações medíocres, que aprenderam a técnica artística como aprenderiam a soltar pipa ou a jogar Sudoku. Assim, a maioria se distingue apenas superficialmente, quando em essência nada têm de superior. Portanto esperar, a cada obra, a descoberta de um espírito extraordinário é simplesmente irracional. Justamente por serem raros é que os grandes artistas merecem um apreço especial.
Drummond afirmou preferir Camões a Pessoa
Drummond afirmou preferir Camões a Pessoa por ser este “frio” e, segundo Drummond, tocar-nos apenas a dimensão intelectual. Preferências… Mas aí está uma observação que pode servir de guia para esta comparação já corriqueira: a “dimensão intelectual”. Se a tomamos com outro sentido, isto é, dizendo respeito à dos dois poetas e não à nossa, não há como não concluir que, em Fernando Pessoa, é ela mais refinada, mais abrangente e mais profunda: há na obra de Pessoa uma multiplicidade que talvez não se encontre em outro autor português. Exatamente por isso, da mesma maneira que é possível declarar uma preferência a Camões por ser ele menos “frio”, é possível declará-la a Pessoa por ser-lhe o mundo interior ostensivamente mais rico que o mundo exterior que serviu de base aos versos de Camões.
O que jamais deixa de impressionar…
O que jamais deixa de impressionar é sair, de berço estéril, uma natureza extraordinária, que se eleva como sem estímulos e a partir de si mesma, sobrepujando-lhe completamente as circunstâncias. Em casos precoces, o fenômeno beira o inexplicável. A ocorrência mais frequente, porém, nem por isso deixa de impressionar. Nesta, uma análise atenta sempre evidencia a atuação de uma como força centrípeta, que com maior ou menor intensidade direciona, para não dizer impele, à vocação e à resolução de externalizá-la. Desta forma, parece sempre o processo culminar num ponto a partir do qual o passado torna-se estranho mas justificado, embora permaneça um mistério a origem de tão decisiva motivação.