Parece mesmo o riso consistir na superior entre todas as manifestações últimas do espírito. Por isso, é válido e até necessário que haja um esforço consciente, em casos onde não se dê de forma espontânea, para que irrompa como uma vitória sobre tendências mais naturais e imediatas. A indignação e a tristeza são muitas vezes justificadas, mas jamais podem representar a superação das circunstâncias que as desencadearam. Se estimulam, é o máximo que podem fazer. A vitória sobre quaisquer circunstâncias implica um desprendimento que permite mirá-las e sorrir.
O mérito de descolar-se do presente…
O mérito de descolar-se do presente parece residir justamente na dificuldade de fazê-lo. Uma vida dedicada ao futuro ou, noutras palavras, uma vida centrada naquilo que permanece — eis o cenário ideal. Ocorre que, a contragosto, o presente está sempre interferindo, e poder-se-ia indagar se não depende a literatura deste choque, que acaba escancarando o problema da impermanência. Quer dizer: para além da necessidade expressiva, a literatura nasce de uma necessidade de preservação. Mais se afaste de ambas, mais o artista se deteriorará. E assim que, ainda que se possa idealizar um cenário onde os esforços convirjam inteiramente para o duradouro, parece de alguma maneira ser necessário que o presente lembre repetidas vezes sua razão.
Iriam para a cadeia
Impressiona notar a facilidade com que escritores dos últimos dois séculos iriam para a cadeia, caso publicassem hoje o que publicaram há poucas décadas atrás. Seriam ferozmente perseguidos, ferozmente censurados e, a menos que salvos por uma raríssima confluência de fatores, ficariam impedidos de escrever e publicar. Mortos, porém, salvo algumas exceções, permanecem tolerados, se não ignorados. Isso evidencia tanto o caráter histérico e autoritário deste século, como tornou-se, mais do que nunca, preferível o anonimato.
A guerra da informação
O que torna a guerra da informação ainda mais abominável que aquela travada em campos de batalha é a ausência de qualquer código de guerra. Consequentemente, dá-se o vale-tudo. O que espanta notar é o número daqueles que ainda não perceberam haver, de fato, uma guerra em curso neste campo. Tal se justifica em grande parte por nenhum dos que ferozmente combatem haver publicado, como pede o protocolo, uma declaração de guerra. Então que aqueles que inocentemente se lhes entravam o caminho são acometidos por uma violência total que não tem o menor escrúpulo para destruir e não admite anistia. Esmagar o adversário, e fazê-lo por quaisquer meios que estejam à disposição, de preferência sorrateiramente, à socapa, para que a agressão não seja identificada ou, no mínimo, seja impossível identificar o agressor. É uma guerra que, em suma, adicionou infâmia à violência pura.