Um extraordinário acelerador da consciência

Diz Brodsky, em tradução portuguesa de um de seus discursos na Suécia:

Aquele que escreve um poema o faz, acima de tudo, porque escrever versos é um extraordinário acelerador da consciência, do pensamento, da compreensão do universo. Aquele que experimenta essa aceleração uma vez não consegue mais abandonar a chance de repetir essa experiência, caindo na dependência do processo, como outros o fazem com drogas e álcool. Aquele que se encontra nesse tipo de dependência da linguagem é, acredito eu, o que chamamos de poeta.

É realmente indescritível a sensação de escrever um poema e, em seguida, analisar o processo. Da ideia ao verso finalizado transcorrem etapas que exigem, primeiramente, a tomada de consciência — para dizer como Brodsky — da ideia, a sua visualização precisa; em seguida, é preciso expressá-la, materializá-la na linguagem. O resultado desta realização é, para o poeta, a assimilação e o domínio daquilo que, anteriormente, não era senão algo opaco. Há casos, porém, que o resultado é ainda mais impressionante, e a ideia desenvolve-se de maneira inesperada: é como se o poeta, à medida que avança no poema, avançasse no próprio pensamento, como se desbravasse o desconhecido e, no fim do processo, aumentasse o escopo de sua percepção.

Menos o homem que seu estado de nervos

O estilo, diz Brodsky, é menos o homem que seu estado de nervos. Muito bem observado! E é possível dar um passo adiante dizendo que há, em todo escritor, o homem que vive e o homem que escreve — ou, noutras palavras, o homem que pensa e o homem que age. O estilo é, em grande medida, o efeito emocional e psicológico desencadeado pelo ato de escrever. O moralista é amargo porque é justamente de amargura que se enche quando escreve sobre aquilo que escreve. Igualmente um estilo grandioso revela um sentimento de grandiosidade. O poeta é um fingidor, diz um verso de Pessoa — mas apenas até certo ponto. Invariavelmente, só se pode expressar aquilo que se pode sentir.

O que o leitor busca

Brodsky diz algo sumamente verdadeiro: o que o leitor busca, na literatura, é ler sobre si mesmo. Isso justifica, da parte do leitor, as preferências literárias; por conseguinte, da parte do escritor, justifica-lhe o sucesso ou a rejeição. Se identificamos o sucesso com a popularidade, o autor de maior sucesso será o mais popular, e é fácil perceber que, para sê-lo, terá de se aproximar mais que os outros da realidade do indivíduo comum. O que o leitor busca, em suma, é um livro que poderia ter sido escrito por ele mesmo. E isso diz tudo.

A originalidade alcança o reconhecimento…

Na arte e na filosofia, a originalidade alcança o reconhecimento mais rapidamente que o valor. Na filosofia, porém, parecem as ideias originais garantirem a longevidade, e quanto mais originais forem, mais seguramente a garantem. O fenômeno é curioso, porque ocorre a despeito do valor da ideia. Esta, se original e ainda que absurda, ainda que mil vezes refutada, parece merecer sempre a generosidade de uma citação. Já na arte, embora a originalidade faça barulho, desgasta-se invariavelmente com o tempo. Na arte, uma obra só perdura se, para além da originalidade, guardar alguma coisa de valor.