É preciso escrever regularmente…

É preciso escrever regularmente para que o hábito automatize a reafirmação do voto e o espírito não sucumba aos perigosíssimos lapsos nos quais a literatura parece insuficiente e a motivação se esvai ante a aflição de escrever ou, antes, ante a aflição de existir. O escritor não pode permitir que a limitação da vida transmita a ilusão de que a literatura é também limitada. É preciso que enxergue nesta justamente o que aquela carece; portanto, transformando a ocupação não somente num refúgio, mas na solução do problema de existir.

A mudança pode ser melhor compreendida…

A mudança pode ser melhor compreendida quando se pensa não em “mudança”, mas na morte de um estado para o nascimento de outro novo. Quando se muda, o que foi deixa de ser e dá lugar a algo diferente, quer melhor, quer pior. O estado anterior, porém, torna-se passado. Assim, é prudente ter cautela sempre que se pensa em mudar algo que agrada ou satisfaz. Mudar algo bom é destruí-lo, e nem sempre o resultado da mudança será capaz de satisfazer.

Toda essa aflição experimentada pelo escrito…

Toda essa aflição experimentada pelo escritor sério poderia ser mitigada caso para ele fosse possível prometer-se e enganar-se, a cada nova obra, que após completá-la deixaria de escrever. Portanto, enxergar a obra presente como a última, sempre. Assim, a ilusão do alívio posterior daria forças para que o penosíssimo trabalho do momento não afligisse, e sim motivasse por ser o derradeiro de um espírito que está a um passo de descansar. Lamentavelmente, isso não é possível. O que é possível é enxergar em desalento o quanto ainda se tem por fazer, é sentir-se aprisionado ao dever, obrigado a forçar linhas que recusam-se a sair, e então fritar-se num processo terrível do qual a satisfação é estranha e o resultado é sempre a mesmíssima aflição.

Farias Brito é um desses homens cuja biografia…

Farias Brito é um desses homens cuja biografia acentua sobremaneira a emoção — e não há outra palavra — que experimentamos em contato com suas obras. É impossível não se comover, e não ser tomado da mais profunda admiração ao constatar que estas, mais do que o valor que possuem como obras, representam uma vitória extraordinária sobre as circunstâncias que pareciam condenar o filósofo a jamais sê-lo, a jamais sequer pensar em sê-lo. Pensamos no menino, e em seguida vemos o homem. Lemos e relemos a prova material do impossível, e então somos obrigados, pela honra, a deixar de lado todas as questões supérfluas e saudar, num grito de reconhecimento e consideração, o espírito que se provou valoroso pela vida e eternizou-se pelo exemplo de superação.