Um grande escritor não escreve para a sua geração e deve aceitá-lo. Mais difícil será o fazê-lo quanto mais perca o senso da própria grandeza ou, antes, da grandeza da própria missão. O fazer literário, o desejo de inserir-se na literatura tem de ser encarado, primariamente, como um reconhecimento do valor e do poder das letras. Manifestar-se desta, e não de outra forma, implica meditar e escolher. Por que a literatura? A reflexão logo apontará o óbvio: o escritor é alguém transformado por ela, e escreve porque assim fizeram os objetos de sua admiração.
Todo aquele cujo sonho é a implantação…
Todo aquele cujo sonho é a implantação de um totalitarismo ideológico padece, antes de tudo, de ignorância histórica. Se a falta de altivez o impede de mirar um pouco além do interesse imediato, um pouco de juízo o recomendaria não desafiar uma reação imprevisível e incontrolável. Mas a história, sempre, há de fazê-lo pagar, porque é infalível em apontar o totalitarismo como aspiração restrita a canalhas. O curso de uma vida é muito pequeno para as consequências que se lhe podem suceder, e se a ignorância histórica, por vezes, pode não comprometer a curto prazo, um pouco de paciência demonstra que, enfim, ela sempre compromete.
O indivíduo comum só tomaria consciência…
O indivíduo comum só tomaria consciência da importância dos valores e condições que lhe foram legados caso pudesse sentir, na carne, tudo quanto foi sofrido pelos seus antepassados. Algo, pois, impossível. Poucas palavras são, por exemplo, tão secas como “liberdade” quando pronunciada em países livres. A semântica esconde o volume de sangue derramado para conquistá-la e, para que cidadãos livres a compreendessem, seria preciso que vivenciassem a sua ausência. O mesmo se dá em muitos outros casos, e disso percebemos que, quando a história e a educação lhe são inúteis, é ridículo falar neste tal “progresso”.
Dois escritores sinceros deveriam cultivar…
Dois escritores sinceros deveriam cultivar mutuamente um sentimento semelhante ao que deveria haver entre dois adversários políticos bem-intencionados: um sentimento de respeito e identificação. Em ambos os casos, porém, são raríssimas as exceções que sobrepujam a mesquinharia corriqueira. Deixando de lado superficialidades como estilo, escolas, gerações, salta aos olhos o fato de que dois escritores, sejam eles quais forem, possuem um elo que os diferencia do restante dos homens, ambos fizeram uma escolha idêntica perante o problema da existência, e o natural é que tal distinção se convertesse numa afinidade. Muito mais concordam em escolhendo a literatura como veículo de expressão da consciência que divergem em aspectos exteriores da vocação. Admiti-lo, contudo, é dificílimo e parece exigir uma virtude que poucos deles possuem.