O moralismo é o primeiro passo de uma trajetória intelectual que não se pode resumir ao moralismo. É preciso que o moralista dê um passo adiante, e supere as constatações provenientes da análise do mundo: ele deve transformar-se e despegar-se deste caso queira progredir. Mas é difícil concentrar-se em evoluir, superar, esquecer, colocando uma pedra sobre aquilo que um dia mereceu atenção; o fazê-lo parece como uma traição à própria natureza, uma negação do passado e uma desvalorização daquilo que a mente produziu. Julgamentos errôneos, porém. A vida intelectual é justificável somente enquanto se movimenta, e o intelectual somente enquanto se permite criar.
O tecnicismo, em literatura, é tragável somente…
É verdade que, ao abordar qualquer tema, o escritor poderá torná-lo interessante dando-lhe profundidade ou, melhor dizendo, mostrando-se como um especialista no assunto. Porém, há um limite que, se ultrapassado, torna o texto maçante a um nível insuportável. O tecnicismo, em literatura, é tragável somente enquanto reforça a peculiaridade da expressão que dele independe; o mais das vezes o que faz é tornar as linhas insípidas para o desconhecedor da área abordada. Lamentavelmente, é um erro difícil de evitar para aquele que dedicou-se com afinco a determinado tema e decide dramatizá-lo. Mas é bom ter em mente que não se produz grande literatura para especialistas porque, afinal de contas, dificilmente chamamos de especialista aquele que o é no essencial.
É estranho notar a absoluta irracionalidade…
É estranho notar a absoluta irracionalidade deste dever que é frequentemente o inesgotável e mais potente combustível na trajetória de grandes escritores. Quando perguntados sobre a razão de tanto esforço e tanta aflição, não parece suficiente, e sequer crível a resposta do “eu tenho de fazer”. Uma vida inteira, então, justificada por algo inexplicável… isso é, sem dúvida, algo aparentemente frágil; e, no entanto, assim é.
Só é possível progredir espiritualmente…
Só é possível progredir espiritualmente e manter a tranquilidade quando as circunstâncias parecem forçar o oposto em se acreditando que ao homem sempre resta uma escolha, ainda que esta se dê como reação psicológica ou como postura interior. Ao contrário do que pode parecer a princípio, o determinismo não tranquiliza e não pode gerar senão angústia para com um futuro incontrolável que recairá sobre aquele que o considera razoável; portanto, o determinista se sente impotente diante de forças alheias à sua vontade. Bem diferente é o sentimento daquele que sabe que, independentemente de quanto lhe ocorra, haverá sempre a possibilidade de resposta.