Parece carecer o poema de um apoio

No que tange ao ritmo, parece carecer o poema de um apoio, uma tonicidade esperada em sílabas específicas, para que haja um senso de harmonia e que as rupturas planejadas possam se destacar. Se varia o padrão rítmico a cada verso, não há padrão e, portanto, não há base rítmica sobre a qual os versos se apoiem. A menos que declaradamente se faça poesia destituindo-a de musicalidade, a regularidade tão criticada parece uma condição necessária a poemas que se queiram bons.

Efeitos da torre

Não há negar alguns efeitos naturais da famigerada torre. Os motivos que levam o homem a nela se instalar variam da experiência ao raciocínio; mas, sem dúvida, a verdadeira torre alberga somente residentes voluntários. Uma vez instalado, vai o homem como que se modificando com o tempo que parece, sobretudo, endurecê-lo. Isolado de agitações, o ânimo arrefece, o corpo estabiliza e a mente parece compensá-lo em atividade dobrada. Em pouco, escancara-se um abismo entre tal postura e a dita normalidade, a qual é analisada em repulsa crescente. Daí que medra no espírito uma intolerância incontrolável, uma aversão violenta àquilo que o raciocínio condena repetidas vezes em intermináveis horas de meditação: o mundo é visto em sua face mais perversa. É certo, pois, que pode a torre estimular sobremaneira a amargura — e frequentemente o faz. Concretiza-se, assim, uma dureza de caráter incomum; dureza que fatalmente acaba, hora ou outra, cometendo uma injustiça. Aqui, dá-se algo curiosíssimo: deparando-se o recluso com a injustiça cometida ou, melhor dizendo, deparando-se ele com uma natureza que lhe contraria os julgamentos, há um choque tão violento que aparenta operado por uma entidade superior. Então, ressurgem os restos de uma humanidade morta e, num misto de assombro e remorso, o habitante da torre parece amolecer.

A língua oferece, a todos, possibilidades idênticas

A língua oferece, a todos, possibilidades idênticas. Não é ela senão um conjunto imenso de signos a ser utilizada como veículo de expressão de ideias, fatos, sentimentos. Numa obra de arte, pois, o manejo da língua, o estilo, será tão mais autêntico quanto mais individualizar a expressão daquilo que se propõe a expressar, ou seja, quanto mais a singularidade do artista ficar exposta através do conjunto de signos universal. Pois bem. Parece que a partir deste raciocínio — correto — ficou legitimado o vale-tudo nas letras e, em razão de outro raciocínio que frequentemente o acompanha, — o de que, em arte, o importante é ser “original”, — verdadeiras aberrações foram reputadas como maravilhas. Defrontando tais obras, ficamos com a sensação de que há algo de errado, de que não pode ser bom algo tão simplório, somente por diferente. E então parece justo observar que a verdadeira maestria, em arte, faz aparentar simples o complexo — e não o contrário…

Se temos a forma como um meio…

Se temos a forma como um meio, — e não como um fim, — e a técnica como expressão de uma individualidade, é preciso admitir um certo relativismo quanto à qualidade estética de uma obra. Melhor dizendo: embora muitos tenham tentado fazê-lo, não é possível estabelecer, em arte, critérios rígidos e universalmente aplicáveis para julgar uma obra. Especialmente quanto à técnica, não é raro vermos artistas de primeiro escalão parecerem cultivá-la de maneira antagônica, deixando óbvio, portanto, que este “como” é válido enquanto potencializador de uma individualidade que, esta sim, é medida razoável da grandeza de uma obra.