Não há nada mais ridículo que a importação do lixo cultural…

No ocidente hodierno, não há nada mais ridículo que a importação do lixo cultural produzido pelos Estados Unidos por parte de países que, em o fazendo, humilham a própria tradição. Henry Adams bem previu que se não poderia esperar algo bom oriundo de uma civilização ascendente à qual fora negada uma base histórico-cultural decente. E aí está… Todas as bobagens concebidas na América, com a velocidade impressionante da era digital, são instantaneamente exportadas para o resto do ocidente, que parece encantar-se com essa vexante embalagem de um inglês corrompido pela ausência da tradição inglesa. Quanto ao Brasil, é melhor nem dizer…

Um ano inteiro para tecer um punhado de versos!

Um ano inteiro para tecer um punhado de versos! E ainda não os finalizei!… A sensação é de uma lentidão inadmissível para alguém que tem na própria obra a raison d’être. Incomoda, e incomoda muito essa produtividade de tartaruga quando ao mesmo tempo as ideias parecem desesperadas a bater nas grades de uma jaula reclamando libertação. Querem elas inundar imediatamente os papéis, tal como também quero, mas não cedo e não largo a prudente recomendação de “um trabalho de cada vez”. Não há como ignorar a possibilidade de uma morte imediata: caso tal cenário se efetivasse, restaria, em extensão muito superior aos pouquíssimos versos que compus, um calhamaço desorganizado e quase incompreensível de anotações.

O desígnio da “grande obra”

Goethe, nas Conversações, lamenta o ter-se deixado seduzir pelo desígnio da “grande obra”. Diz saber o quanto ele o prejudicou e se arrepende de ter-se permitido bloquear a mente para suas valorosas manifestações espontâneas que, embora reclamassem atenção, tiveram de ser descartadas em prol do objetivo maior. Compreensível… não é difícil admitir que algo se perca devido a essa necessidade de concentração do esforço que é imperiosa para a criação de uma “obra de vulto”, como diz Goethe. Mas talvez seja um preço justo, como talvez seja arriscado apostar todas as fichas em uma obra fragmentária, de inspiração ocasional. Muito de Goethe deriva do Fausto, e se algo perdeu ele com criá-lo, ora, ganhou-o afinal! É muito difícil aderir integralmente à recomendação de evitar as “grandes obras” quando vemos que delas proveio o melhor de parte considerável dos grandes autores. Se, por um lado, é justíssima a observação de que são elas perigosas, e de que talvez não sejam indicadas à maioria dos artistas, por outro lado nalguns casos parece extremamente proveitosa a canalização dos esforços para uma única finalidade.

“O que dá ao homem um mínimo de unidade interior…”

Há razão quando Nelson diz que “o que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões”. Com o tempo, vão elas se extremando e como que se firmando no espírito até um ponto em que já se não pode demovê-las. Tomado em conjunto, é o espírito sintetizado por um misto de suas manifestações mais frequentes e mais intensas, qualidades correntes nas obsessões. A verdade é que há inclinações das quais, mesmo que tente, o espírito não se desvia, como se algo forçasse-o repetidas vezes a assumir aquilo que lhe é inato, a usar adequadamente as lentes que possui. Então vemos que o mesmo que para alguns é irrelevante e dispensável exerce noutros atração irresistível. Obsessões… a nível individual, o melhor é logo aceitá-las.