É um fato notável que, para que saibamos quem foram os agitadores políticos de épocas passadas, tenhamos de recorrer a obras que não as de história. São raríssimas as exceções a essa regra, e o mais das vezes aplicam-se aos piores exemplos da classe. Triste destino! E ver que a história não concede uma linha, uma mísera menção ao grosso destes que em vida inspiram admirações tão exaltadas, influindo diretamente na dita opinião pública e passando uma falsa impressão de importância — que a história trata de desmentir. Disto se tira uma única conclusão…
Após entranhado o costume do período conciso…
Após entranhado o costume do período conciso, direto e objetivo, tão em voga nestes dias, que o têm como quase exigência do estilo, é um prazer o mergulhar esporádico na passada de outros tempos, lenta, cadenciada, parecendo evidenciar que não se faz arte com pressa, que a atenção pede detalhes, adiciona nuances, singulariza enquanto se vai estendendo. Imergir neste vagar é como que fugir da banalidade moderna, e a medida que os períodos progridem ficamos com a sensação de uma profundidade que escapa a este tempo, que perdeu-se em prioridades fúteis e transformou-se em inimigo daquele estado tranquilo que acentua a tendência humana para a contemplação.
Se o verso alexandrino clássico, exigindo a sexta sílaba…
Se o verso alexandrino clássico, exigindo a sexta sílaba sempre aguda ou grave em palavra que se elida na seguinte, visava, com tais regras, construir uma unidade dodecassílaba, parece-me que em nada deixa a desejar o alexandrino português que se valha da abundância de palavras esdrúxulas do idioma, ocasionalmente inserindo-as com a tônica na sexta sílaba e elidindo-as na palavra seguinte. Muito pelo contrário, parece-me haver um quê de novidade nesta construção não encontrada em versos franceses. Bilac e Guimarães Passos, dizendo que está vetado ao alexandrino “clássico, o verdadeiro, o legítimo” o vocábulo esdrúxulo com tônica na sexta sílaba, talvez não se atentaram para o fato de que tal não ocorre em poetas franceses, tidos como introdutores deste metro, pelo simples fato de que a prosódia francesa não admite tais palavras, acentuando sempre a última sílaba não muda de seus vocábulos. Não vejo por que o poeta português deva adaptar seus versos para esta que mais parece uma limitação da língua francesa.
Uma silabada em latim
Se procede o asseverado por Gilberto Freyre que, há pouco mais de um século, neste mesmíssimo Brasil, uma silabada em latim ou um erro de pronúncia em francês “podia ser a desgraça de um homem com pretensões a culto”, será difícil encontrar na história da humanidade uma tragédia intelectual de mesmo calibre da que se passou em solo verde-amarelo. Em parte, poder-se-ia justificá-lo pela atual “inutilidade” de se ter uma pronúncia francesa correta, “inutilidade” ainda maior para o latim, estudado exclusivamente para ler. Contudo, para não discorrer sobre o “inútil”, salta aos olhos o sepultamento absoluto desta que fora uma tradição aos doutos, ora instruídos de forma inteiramente distinta. Hoje, impressiona a mera constatação que tal tradição existiu, que houve o tempo em que brasileiros aprendiam latim estimulados pela palmatória e formavam-se fluentes em francês. É ver qual será a compensação desta notável falência, já comentada nestas notas…