A “intuição” de Jung

De todas as funções psicológicas fundamentais junguianas, a “intuição” é a mais interessante e desafiadora para aqueles que buscam compreendê-las em profundidade. O próprio indivíduo no qual este mecanismo perceptivo apresenta-se acentuado, caso busque interpretá-lo, ver-se-á em grande dificuldade, posto que interpretá-lo seria em suma racionalizá-lo, e não se racionaliza o irracional. Demais, se comparamo-lo com a outra função irracional segundo a classificação de Jung, a “sensação”, esta parece sem dúvida mais compreensível e menos abstrusa para aqueles que a não possuem saliente, porquanto ativada através de estímulos mais facilmente visíveis e palpáveis. Como a “sensação”, é a “intuição” espontânea; mas embora, como diz Jung, seja uma faculdade exclusivamente perceptiva, trabalhando em conjunto com as funções de julgamento induz um parecer daquilo que percebe. Sai este, portanto, automático e calcado no inexplicável. O que sobretudo impressiona é o sair frequentemente carregado de certeza, uma certeza que desafia a lógica, posto calcada numa percepção irracional. E ver que esse mecanismo prova-se eficaz repetidas vezes, prova-se confiável a ponto de não somente rivalizar, mas invalidar conclusões alcançadas por outras faculdades — faculdades aparentemente mais lógicas — naqueles que a possuem pronunciada. Notável…

Embora seja interessantíssimo constatar…

Embora seja interessantíssimo constatar similaridades na abordagem de diferentes tradições do pensamento ao problema central da experiência humana, e embora elas possam efetivamente instigarem o despertar da consciência, não errará quem disser que todos os livros já escritos são insuficientes para que o indivíduo complete-se nesta terra, quer dizer, são eles inúteis a menos que estimulem a ação. Por isso este problema, que já rendeu linhas infinitas, ficará, a nível individual, sempre por resolver, a despeito da qualidade do manual utilizado. O espírito que desperta ou, melhor dizendo, o despertar, resume-se à constatação de uma obra por fazer, uma obra pessoal e intransferível, sem a qual a própria existência parece esvaziada de sentido. Portanto são muitas as vias que conduzem a este que seja talvez o momento capital de uma vida, mas os caminhos são inúteis, senão quando justificados pelo ato de percorrê-los.

O mecanismo psicológico precursor das desilusões…

O mecanismo psicológico precursor das desilusões é uma das faculdades mentais mais interessantes que se tem notícia. Manifesta-se ele como uma necessidade, uma tendência natural inconsciente de projetar idealizações em entes e situações reais. Nas mentes que o experimentam, toda a atividade mental consciente parece propensa a descolar-se do concreto e mesclar-se espontaneamente com tonalidades subjetivas e fantasiosas, criando como uma realidade paralela em que a experiência é intensificada e apresenta-se em aspecto ideal. Freud, é claro, classificou como doença mental o pouco que entendeu deste mecanismo. Mas se, por um lado, concorre ele a acentuar, senão produzir futuros contrastes desagradáveis entre expectativa e realidade, convém notar que a criatividade é inteiramente dependente desta capacidade de atribuir qualidades fantásticas à experiência concreta. Desde o poeta que idealiza a mulher amada ao engenheiro que cria em mente o impossível, todos eles têm a inventividade, e portanto o próprio distintivo, originária desta mesmíssima faculdade mental.

O urubu-de-cabeça-preta

Vou eu, concentrado, batendo umas linhas inúteis, quando sou bruscamente interrompido por um urubu-de-cabeça-preta imenso, que quase me invade a cozinha e, em seguida, pousa em meu quintal. Fico a admirá-lo, imponente, pensando que jamais havia visto, de perto, um destes tão grande. Após alguns minutos, retorno à minha mesa e, antes que voltasse a escrever, pousa o urubu num poste, diante de minha janela. Penso sorrindo no verso de Augusto: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”. Uma semana depois, pela manhã, vou eu compondo alguns versos amargos, quando novamente sou interrompido: um novo urubu, de mesma espécie, pousa-me no quintal reiterando o fato até então inédito. Vou observá-lo: noto que é um pouco menor que o primeiro, embora possa facilmente engolir um pombo numa bocada. Desta vez, detenho-me um pouco mais analisando-o. Parece ele não me notar enquanto reparo que, a despeito da crença popular, nada nele parece-me aventar mau agouro. Vou examinando, mais uma vez, o caráter majestoso desta ave, quando ela enfim alça voo. Num minuto, já está planando em altitude inalcançável para pássaros comuns, voando a seu modo todo particular, de asas abertas e estáticas o mais do tempo e subindo impulsionada por correntes, em técnica que outros pássaros nem sonham em dominar. Bonito! Perco-o de vista, e retorno inspirado à minha composição.