Há uma diferença notável entre ter uma “causa” e querer impô-la ao resto dos homens. É possível dizer, a princípio, ser tal diferença o caráter. Porém, também se pode dizer que, mais seja verdadeiro o sentimento inspirado pela “causa”, mais sejam seus “benefícios” claros na mente de quem a possui, mais será natural o impulso de querer que outros homens também a tenham, ou a “desfrutem”. Aqui, pois, chegamos à imposição. Não há como interpretá-la, independentemente de como se dê sua prática, ou de como esteja alicerçada, senão como uma violação primária, um ataque direto à liberdade do indivíduo. A imposição nunca será nobre e, após perpetrar-lhe a tirania, já não se poderá chamar homens livres aqueles que a sofreram.
Novamente Antero…
É impressionante como fui capaz de enxergar Antero através de seus versos. Leio-lhe uma biografia, e uma infinidade de fatos não descritos assomam-se a mim como óbvios — fatos que acabo confirmando na pena de outros biógrafos. Assim, compreendo-o inteira e perfeitamente, desde os tormentos íntimos à conduta; e se um Eça diz-lhe a convivência “fugidia”, embora “consoladora”, já sei os motivos, já deduzo o mistério que esconde essa postura aparentemente contraditória. Sei como Antero se sentia, e sei como lhe era pesado um fardo do qual não podia falar. É comovente vê-lo descrito por Eça, ver como impôs uma vitória esmagadora sobre seus conflitos interiores através de sua personalidade. E, finalmente…
Atropelar a preguiça
É simplesmente deliciosa a sensação que experimentamos quando, diante de uma tarefa complexa que necessita ser refeita em decorrência de um pequeno erro, tendo contra nós a mente, a qual aponta razões infinitas para livrar-se do novo esforço, atropelamos a preguiça, refazemos a tarefa e, finalmente, somos premiados com um resultado muito superior ao antecedente. É curioso notar o quanto é virtuosa e determinante a iniciativa nestes casos. O problema se coloca, tudo parece aconselhar-nos evitar o novo esforço; e, se o fazemos, segue-se um longo remorso proveniente da falha, proveniente de não termos feito melhor aquilo que o permitia. Em contrapartida, se tomamos a via oposta e o resultado nos premia, somos tomados por um misto de alívio e satisfação. Feliz aquele que jamais ceder à preguiça…
O templo da glória literária
Segundo Schopenhauer, saiu da pena de d’Alembert esta virtuosíssima reflexão sobre o “templo da glória literária”:
L’intérieur du temple n’est habité que par des morts qui n’y étaient pas de leur vivant, et par quelques vivants que l’on met à la porte, pour la plupart, dès qu’ils sont morts.
Que coisa! E pior é notar raríssimas as exceções a essa regra. A conclusão mais evidente é aquela de Cioran, Valéry, Volaire, de ser o sucesso uma verdadeira desgraça ao artista. Porém, quando indagamos o porquê de tal dedução, somos levados a admitir que nada há de mais benéfico, senão essencial ao artista que uma mistura entre fracasso e solidão. Que lhe seja o isolamento produtivo é facilmente compreensível; mas o fracasso? o passar a vida preterido, senão repudiado? E notar que é o que se passou na esmagadora maioria das vezes com aqueles que se eternizaram no templo de d’Alembert.