É curioso como a psicologia moderna, tirando do homem a autonomia, pintando-o como submisso a este monstro criado por Freud, — o “inconsciente”, — acabou por desvalorizar-lhe a própria mente, o contrário do que se poderia esperar. Mesmo Jung, que tão distintamente percebeu o caráter individual da psicologia humana, parece derrapar em algumas falsas noções da psicologia moderna. Afirma ele, com algumas prudentes ressalvas, que nada influencia tão pouco nossa conduta quanto as ideias. E aqui voltamos, mais uma vez, à comparação insultuosa deste “nossa”. Qual “nossa”? Inquestionavelmente, homens diferentes fazem usos diferentes da mente que possuem. Não se há de ser filósofo para se ter uma “filosofia de vida”; e esta, que é senão o resultado prático de ideias, conceitos e julgamentos do indivíduo? Como negar as consequências práticas do raciocínio ao homem de valor? Como continuar com essa sustentação infame de que toda moral é uma construção estritamente coletiva? Se as ideias influenciarem realmente tão pouco o homem, só se pode concluir que este homem, especificamente, trata-se de uma natureza inferior.
O grande gênio o mais das vezes vive estorvado
Creio ter sido Carpeaux a notar que o grande gênio o mais das vezes vive estorvado pelas circunstâncias. E mesmo que não queira, mesmo que resista, uma força parece colocá-lo em movimento, proibir-lhe a inércia improdutiva. Assim temos o perfil mais comum: um indivíduo nem pobre, nem rico; nem totalmente desprovido de meios, nem agraciado com demasiadas facilidades. Põe-se em ação; fá-lo porque precisa, porque sente pulsando um desejo e uma necessidade de superar-se, de elevar-se, que não é senão uma recusa terminante das condições presentes. Destarte, adquire uma motivação inquebrantável, disposta às últimas consequências para alcançar aquilo que se propôs. Adapta-se como pode aos estorvos momentâneos e segue adiante, sempre adiante. Então, todo esse conjunto complexo de circunstâncias de que fala Pessoa, especialmente as do ambiente, torna-lhe o espírito excepcionalmente vigoroso, para que seja por fim beneficiado pelos necessários — como também nota Pessoa — “episódios mínimos de sorte”. É um fenômeno interessantíssimo, e que dá o que pensar…
Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada…
Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada, — e tão imitada!, — o mesmo ocorre em poesia com essa leveza simulada, essa simplicidade querendo-se profunda, essa delicadeza que, quando não expressão autêntica de um temperamento, enfastia. Em resumo: Drummond e Bandeira. Talvez a maior maldição do sucesso seja-lhe os rebentos, isto é, os imitadores. Como é constrangedora a técnica quando exposta sem o verniz original! E ver todas essas cópias baratas pululando, tornando ridícula a própria criatividade a engendrou… Diretamente, é verdade, os originais não se maculam; contudo, é difícil que algum artista se regozije com falsificações. Restam os antídotos, e nenhum parece mais potente que inserir na própria arte excentricidades absurdas, repugnantes, as quais imitador nenhum terá coragem de se apropriar.
The development of personality, de Carl Jung
Jung é realmente admirável! O esforço que empreendeu na tentativa de integrar os elementos irracionais da psique humana em sua psicologia analítica, ciente das críticas que receberia da comunidade científica, é digno do maior apreço. Jung não somente recusou-se a negar ou esconder o que via, como buscou sinceramente explicações para problemas extremamente intrincados, expondo-as ainda que a tatear na escuridão. A visão de “personalidade” que expõe neste paper traduzido como The development of personality mostra uma argúcia raríssima em filhos da academia e afronta a noção de que o homem limita-se a uma construção biológico-social. A personalidade não pode ser ensinada ou generalizada, não manifesta-se espontaneamente e consiste num ato de coragem contra o comportamento de rebanho. É um distintivo, um destino e uma maldição. É uma deliberação consciente e individual, que exige um compromisso consigo mesmo e que jamais se dá por necessidade. É, pois, uma escolha, com consequências insuportáveis à maioria e que altera por completo o paradigma comportamental daquele que a efetiva. Jung, talvez o maior dos psiquiatras modernos, foi especialmente grande por não acomodar-se no conforto dos manuais de psicologia e não ceder ao postulado delirante de que a mente humana obedece a um funcionamento universal.