É realmente prazeroso encontrar em autores conclusões a que chegamos previamente e por conta própria. Nada, porém, se compara a encontrá-las contrárias às nossas quando, se não refutam-nos por completo, mostram-se igualmente razoáveis. No primeiro caso, não nos alegramos senão por vaidade; no segundo, efetivamente crescemos. Há de se admitir, porém, que é este um prazer raro, dificilmente inato, e mais frequentemente fruto de um esforço contínuo, de uma educação da mente para que aceite o contraditório e compreenda a realidade como ambígua e multifacetada — algo que pouquíssimos espíritos se dispõem a fazer.
Em português, a beleza e precisão do discurso…
Em português, a beleza e precisão do discurso, seja em prosa ou em verso, dá-se principalmente pela boa escolha dos verbos. Estes, bem selecionados, dispensam advérbios e evitam perífrases, só justificáveis quando pede a cadência. Impressiona notar a quantidade de verbos do idioma, algo que obriga um estudo apurado e constante ao artista sério, que só os dominará talvez após longos anos de esforço. Flaubert, se escrevesse em português, provavelmente dedicaria a eles, e não aos substantivos, a sua obsessão.
O casamento é a morte da poesia lírico-amorosa
Versos de Byron:
There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?
Há verdades demasiado desagradáveis e que merecidamente acabam evitadas. Não há negar: o casamento é a morte da poesia lírico-amorosa. Ou, antes, acaba esta no instante em que o desejo é consumado. Para existir, é preciso que o poeta lamente não possuir aquilo que cobice, isto é, é preciso que algo entrave a realização de sua fantasia. Os versos brotarão somente enquanto o objeto idealizado estiver indisponível, e por isso mesmo permitir-se pintado com feitio extraordinário, algo que jamais ocorrerá caso se mostre uma entidade real. E aqui vamos nós: o amor de Petrarca pariu versos porquanto não correspondido, — conclusão óbvia que dispensa sustentação biográfica, — como ocorreu e ocorre com todos os seus pares. Digam quanto quiserem, mas esta é a verdade: o poeta capaz de realizar a própria vontade dificilmente fará versos de “amor”.
O cristianismo é a principal barreira ao coletivismo
Foram pouquíssimos a enxergar que consistiria o cristianismo na principal barreira a impedir que o ocidente fosse totalmente dominado pelas ideias coletivistas que floresceram no último século. Nestes dias, perdura uma guerra que já estaria perdida, não fosse a honrosa resistência cristã. O lance histórico já é patente, e demasiado interessante para ser ignorado: após décadas de insultos e perda de prestígio, só o cristianismo parece ter firmado laços fortes o suficiente para suplantar esta praga chamada comunismo. Quem diria! Num mundo laico, justamente a religião a salvá-lo da opressão totalitária que permitiu progredisse a níveis inéditos. Os historiadores terão de fazer justiça, caso livre-se o ocidente da desgraça e da miséria que o ameaça, e creditar ao cristianismo as honras de evitar aqueles que seriam talvez os mais infames e mais sombrios capítulos da dignidade humana.