Qualquer trabalho é suportável…

De Guyau:

« Maudit soit ce travail qui, semblable à la flamme,
Dévore notre vie et la disperse au vent ;
Maudit ce luxe vain, ces caprices de femme
Toujours prêts à payer sa vie à qui la vend ! »

Oh, desespero! E o impressionante, o inacreditável é ver que tais versos não podem hoje sair senão de penas raríssimas, as incapazes de se adaptarem à normalidade vigente. Sem dúvida, é tal sentimento inconfessável, um pecado contra a sociedade moderna a qual exige o assentimento e a exaltação destas qualidades e desta conduta que mais parece estrangular a dignidade humana. Creio ter sido Dostoiévski a refletir, no cárcere geladíssimo da Sibéria, que qualquer trabalho é suportável, mas constatá-lo inútil, constatar-se a esforçar-se por nada, isso é absolutamente revoltante e intolerável ao homem: numa situação destas, o melhor sem dúvida é não existir. Mas Dostoiévski, talvez, tenha-se precipitado: ao menos hoje, pouquíssimos parecem adequar-se-lhe à constatação.

Quando se destrói aquilo…

Diz, em obra póstuma, o falecido papa Bento XVI:

La società occidentale è una società nella quale nella sfera pubblica Dio è assente e per la quale non ha più nulla da dire. E per questo è una società nella quale si perde sempre più il criterio e la misura dell’umano.

Disso deriva, em grande parte, o vácuo existencial em que a sociedade moderna se meteu. Quando se destrói aquilo que por muitos séculos serviu ao homem como um fulcro de sentido, uma certeza e um suporte, são inevitáveis o desamparo e a confusão. Desorientado, o homem moderno já não tem em que amparar-se e, desprovido de uma visão superior da existência, tornou-se menor. São discutíveis os benefícios da crença ao homem comum; contudo, não se pode negar que a prática religiosa força-o a enxergar uma realidade mais complexa e, frequentemente, eleva-o acima da banalidade cotidiana.

A revolta de Proudhon

Outra de Proudhon:

L’autorité ne fut pas plutôt inaugurée dans le monde qu’elle devint l’objet de la compétition universelle. Autorité, Gouvernement, Pouvoir, Etat — ces mots désignent tous la même chose —, chacun y vit le moyen d’opprimer et d’exploiter ses semblables. Absolutistes, doctrinaires, démagogues et socialistes tournèrent incessamment leurs regards vers l’autorité, comme vers leur pôle unique.

A revolta de Proudhon, a veemência e o ardor que lhe saltam como faíscas das linhas é assaz compreensível: é muito simples imaginar uma sociedade que não se resuma em opressores e oprimidos; contudo, é espantoso constatar que a opressão, seja com quais vestes se apresente, não faz senão consolidar-se moldando-se às propensões vigentes. E ver que, ainda que esteja o óbvio escancaradamente exposto, a maioria não o enxerga, tomando parte ativa na perpetuação daquilo que lhe contraria frontalmente não somente os interesses, mas a própria dignidade.

Ser governado

De Proudhon:

Être GOUVERNÉ, c’est être gardé à vue, inspecté, espionné, dirigé, légiféré, réglementé, parqué, endoctriné, prêché, contrôlé, estimé, apprécié, censuré, commandé, par des êtres qui n’ont ni le titre, ni la science, ni la vertu… Être GOUVERNÉ, c’est être, à chaque opération, à chaque transaction, à chaque mouvement, noté, enregistré, recensé, tarifé, timbré, toisé, coté, cotisé, patenté, licencié, autorisé, apostillé, admonesté, empêché, réformé, redressé, corrigé. C’est, sous prétexte d’utilité publique, et au nom de l’intérêt général, être mis à contribution, exercé, rançonné, exploité, monopolisé, concussionné, pressuré, mystifié, volé ; puis, à la moindre résistance, au premier mot de plainte, réprimé, amendé, vilipendé, vexé, traqué, houspillé, assommé, désarmé, garrotté, emprisonné, fusillé, mitraillé, jugé, condamné, déporté, sacrifié, vendu, trahi et, pour comble, joué, berné, outragé, déshonoré. Voilà le gouvernement, voilà sa justice, voilà sa morale !

A eloquência de Proudhon é destas que convence um monge a comprar um fuzil. A meticulosidade na exposição do óbvio não pode admitir senão o riso como resposta. Que dizer? Como refutá-lo? Proudhon, que não era um homem comum, tinha olhos para enxergar a exploração tirânica que se tornou normalidade social, tinha olhos para ver o estado vexatório de submissão em que o cidadão comum se permitiu viver. E então? Perdura o mito, ora gravado na pedra, de que é impreterível que todos assintam em ser ovelhas e que uns poucos sejam lobos. É assim e só assim que a “sociedade” pode funcionar. Um milímetro fora disso é o caos e a desordem: todos perdem e, portanto, o melhor é aceitar em silêncio a necessidade de que uns mandem e outros obedeçam.