Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará…

Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará a língua brasileira, visto que o tempo inevitavelmente particulariza a língua falada em diferentes terras, dificultando cada vez mais uma unidade idiomática. Há, nisto, muitas razões plausíveis e muitos erros. O primeiro destes é a suposição de que uma língua deve ter uma “unidade”, isto é, deve ser falada da mesma maneira unanimemente. Chega a ser risível pensar que, oficializada a tal língua brasileira, não será ela suscetível às mesmíssimas variações regionais e aos mesmíssimos processos evolutivos que rigorosamente todos os idiomas falados em larga escala sofreram e sofrerão. É preciso ser muito ignorante para supor que canetadas pautarão a língua falada nas ruas, quando é esta que, em última instância, pauta as gramáticas. Medidas estúpidas como este último acordo ortográfico não fazem senão torná-lo ainda mais evidente. Por outro lado, é compreensível e até natural que um povo anseie por uma expressão autêntica. Mas é preciso muito cuidado para distinguir até que ponto esta autenticidade representa uma evolução necessária, em vez de operar um rompimento brusco com as raízes que a permitiram evoluir.

Eram grandes artistas a comandar os teatros

Quando se olha para trás e se nota que, há não muito tempo, eram grandes artistas a comandar os teatros, definir-lhes a programação e, portanto, determinar as obras com as quais o público entraria em contato, percebe-se que, em algum momento na história, mudou-se a ordem e a grande arte desapareceu dos cartazes. Salvo exceções honrosas, o que houve foi uma inversão completa: antigamente, o diretor do teatro selecionava o que o público veria; agora, é o público que dita o que o diretor tem de apresentar. Assim, os mesmos estabelecimentos antes consagrados à arte tornaram-se casas de entretenimento. É como se o mundo moderno já não visse potencial educativo na arte, concentrando-se em outros interesses. Se algo há de se concluir é que a alta cultura, embora hoje mais acessível, já não bate por acaso na porta de quem a não procurar.

O artista que preocupar-se demasiado…

O artista que preocupar-se demasiado com as conjunturas sociopolíticas de seu tempo logo ver-se-á desperdiçando o intelecto com questões que não pode resolver, ou seja, gastará neurônios inutilmente e acabará frustrado. É claro que é algo pouco inteligente… Se há questões desta estirpe que poderão afetá-lo, o prudente é tão somente conhecê-las, precaver-se caso necessário e, se vierem efetivamente a bater-lhe na porta, adaptar-se como puder. Portanto agir, mas apenas se lhe não houver outra opção. E no mais, não preocupar-se com aquilo que não tem controle, direcionando-lhe o foco para o mais importante e que lhe permite campo de ação.

A impressão que se fica após a leitura…

A impressão que se fica após a leitura de vários romances náuticos é que o homem, para embarcar num veleiro, tinha de sofrer ao menos um distúrbio mental grave. É divertidíssimo constatar quão absurdas nos parecem, hoje, as navegações do passado, em que as embarcações eram como joguetes expostos à fúria marítima e os viajantes, acossados pelos terrores das procelas, punham-se de joelhos diante da sorte. Essa exposição voluntária ao desconhecido parece-nos irracional, embora expresse uma coragem que hoje carecemos. Mas o embate do homem com o irracional, o poderoso e incontrolável continua existindo; embora já não se tire lições como antes e nem se saia com a mesma dignidade.