Voltando ao passado

É uma ironia divertidíssima a frutífera tendência, da parte das “novas ciências”, de voltarem-se ao passado em busca de fundamentação e respostas. Vemos, por exemplo, a psicologia, que tornou-se outra após Jung, muito mais complexa, interessante e efetiva, graças às profundas investigações que fez Jung em variados terrenos de variadas culturas antigas. E tal fenômeno não se limita às “novas ciências”, fazendo-se presente na literatura, na filosofia e onde quer que voltemos as lentes: parecem estar as respostas de que carece o homem presentes nos mais primitivos vestígios de sua existência, limitando-se a expansão de seu conhecimento a dar novas formas a conclusões — para não dizer verdades — já há muito percebidas.

A cela de Freud

Causa pena imaginar Freud encurralando-se gradativamente numa cela da qual, até o fim da vida, julgou impossível a libertação. O drama de Freud é não ter aparentemente partido do erro, mas sim de uma visão limitada que aprofundou-se e não se expandiu. Parece ele ter carecido de um mestre, ou ter-lhe sido a experiência repetitiva, pobre e insuficiente. É muito difícil não sentir pulsar a antipatia quando se analisa a obra de Freud em conjunto: é preciso serenidade para recordar que esta obra, também, encerra uma legítima tragédia individual.

Ensinar os pacientes a viver

De mãos dadas ao marketing, a psicologia praticada nos consultórios deu para querer ensinar os pacientes a viver. Noutras palavras: querem os psicólogos dar lições de filosofia. Assim que se vai mesclando a psicologia com aquilo que dita o marketing, e uma visão de mundo risível, sem a menor profundidade, vai-se configurando como parâmetro de sanidade mental. Os psicólogos, em vez de trabalharem a própria falta de cultura e desconhecimento sobre a vida, têm transformado a ciência da mente em mero produto do bem-estar.

Parece carecer o poema de um apoio

No que tange ao ritmo, parece carecer o poema de um apoio, uma tonicidade esperada em sílabas específicas, para que haja um senso de harmonia e que as rupturas planejadas possam se destacar. Se varia o padrão rítmico a cada verso, não há padrão e, portanto, não há base rítmica sobre a qual os versos se apoiem. A menos que declaradamente se faça poesia destituindo-a de musicalidade, a regularidade tão criticada parece uma condição necessária a poemas que se queiram bons.