Há muitas vantagens em se publicar voluminhos…

Há muitas vantagens em se publicar voluminhos com regularidade em vez de deixar a obra crescer indefinidamente. A primeira delas é a distribuição mais tolerável do trabalho de revisão. Outra delas e, talvez, a principal, é que não se sabe quando chegará a morte, e é bom evitar o risco de ter publicados trechos que jamais passariam pela mais falha e desatenta revisão, como se vê aos montes nos Diários de Kafka. Que ironia! Kafka, que adorava taxar de mau e queimar o que escrevia, teve publicada integralmente, com erros óbvios e muitas linhas ociosas, uma obra que provavelmente atiraria à fogueira. Sem dúvida, é algo que poderia ter sido evitado.

O “quartel-general do barulho”

Kafka, em seus Diários, nomeia atrevidamente o seu quarto como um “quartel-general do barulho”. Reclama de portas batendo, do tropear de passos apressados, de roupões a se arrastar, da raspagem de cinzas, de gritos… Oh, meu caro sr. Kafka! foi Deus quem te livrou da música sertaneja, dos xingamentos ensandecidos a juízes, zagueiros e laterais! Nunca soubeste o que é interromper uma composição com murros na parede, saltos pesadíssimos de um elefante logo acima do teu teto! Ler ao som insuportável da bateria de uma banda evangélica, decorando os cantos do culto em vez de compreender as linhas que se lê! Agradece, meu caro! Viveste quando ainda não havia esta porcaria de telefone móvel, quando igrejas não possuíam microfones, amplificadores, e não se instalavam a cada esquina, especialmente na tua, por quantas vezes mudasses de endereço!…

Sinceridade inconveniente

De Pessoa:

Nada me pesa tanto no desgosto como as palavras sociais de moral. Já a palavra “dever” é para mim desagradável como um intruso. Mas os termos “dever cívico”, “solidariedade”, “humanitarismo”, e outros da mesma estirpe, repugnam-me como porcarias que despejassem sobre mim de janelas. Sinto-me ofendido com a suposição, que alguém porventura faça, de que essas expressões têm que ver comigo, de que lhes encontro, não só uma valia, mas sequer um sentido.

Como é deliciosa essa sinceridade inconveniente! Há trechos de Fernando Pessoa que, publicados hoje, pô-lo-iam na cadeia. Mas como insulta essa noção estúpida de que naturezas inteiramente diferentes são semelhantes! Se ainda se limitasse a uma noção… mas o que há é uma imposição de valores, uma exigência feroz dos homens inferiores de que todos lhe sejam congêneres, algo inaceitável para um espírito superior. Por mais energicamente que reivindiquem e apregoem essa paridade fantasiosa, por mais que a vitória seja unanimemente cantada, haverá sempre um contraste de interesses insuperável. Bradem, vociferem, castiguem, o que for!, nada fará dissipar o desprezo que lhes será sempre direcionado.

Aflições produtivas

É irônico observar que, na maioria dos casos, a liberdade não produza bons frutos quando, em contrapartida, o desejo de liberdade seja um dos mais potentes propulsores do espírito humano. O homem, para ser produtivo, parece carecer de um estado que lhe proíba a inércia por simples necessidade. E toda a aflição oriunda da consciência da própria dependência, toda a tortura psicológica que brota desse desejo impossível de libertação parecem, afinal, proveitosas! É bem verdade que o tempo consagrado ao necessário aparenta sempre acima do tolerável; mas não há dúvida que a mente acostumada à agitação contínua, que tira ação da insatisfação com a própria circunstância, obra mais e melhor simplesmente porque se tornou mais ativa e vigorosa — ainda que por razões, digamos, pouco nobres.