Ocorreu no Brasil uma drástica mudança…

Nos últimos anos, ocorreu no Brasil uma drástica mudança psicossocial que há de ter efeitos duradouros e que, por ora, são de extensão imponderável. Impulsionado especialmente pela política, e na contramão do que ocorre no restante da América do Sul, o fenômeno encantaria tanto um Gilberto Freyre quanto um José Maria Bello. Apenas um cego o não notaria ao analisá-lo sociologicamente perante as últimas décadas. Está em curso uma guerra sobretudo de valores, iniciada por uma centelha que aparentava insignificante mas que gerou um efeito em cadeia e cuja vitória, agora, parece mera questão de tempo. A intelectualidade dominante, que estabeleceu-se num trabalho de décadas, exatamente no momento em que parecia soberana e invencível, viu surgir, de onde jamais esperaria, um movimento reativo que a fustigou com violência inopinada. Hoje, vemo-la em desespero, valendo-se de todos os poderosos meios de que dispõe para evitar a derrota; mas ainda assim parecem estes ineficazes, somente a postergar um fim que já se afigura inevitável. Será uma lástima se o futuro não puder apreciar este momento através de linhas isentas.

Há algo brilhante e curiosíssimo no Simbolismo

Por muito que se diga contra a obscuridade do Simbolismo ou, mais especificamente, dos poetas simbolistas, a verdade é que há algo brilhante e curiosíssimo nesta técnica expressiva que parece ocultar-se quando, em verdade, abre-se a possibilidades insondáveis. Em poesia, as palavras adquirem um peso incomum quando evocadas. Um verso desprovido de nexo sintático mas abundante em vocábulos sugestivos terá, sim, um forte efeito na cabeça de quem os lê. Se constrói-se “Dia chuvoso; dor; fadiga e desalento”, embora não conectadas logicamente por um argumento, a mente, ao ler tais palavras, de pronto as relaciona e forma uma imagem possuidora do elo lógico que lhes parece faltar. Assim, o poeta consegue fazer com que elas se manifestem em nuances individualizadas para cada leitor. Se, por vezes, a obscuridade pode ser enfadonha, por outras pode gerar efeitos interessantíssimos e quase ilimitados.

Os escravos do passado

Se causa estranhamento, e um estranhamento legítimo, uma inteligência como Schopenhauer apegar-se a uma filosofia concebida aos trinta e passar o resto a vida a sustentá-la, que dizer de Freud, velho e de cabeça branca, a continuar limitando a psicologia humana à “sexualidade reprimida” e a traumas infantis? É o fim! Parece uma vida inteira desperdiçada, uma vida inteira em que o espírito não foi capaz de contemplar possibilidades superiores. Ou então evidência de um orgulho invencível, que tratou de sabotar-se estrangulando todo e qualquer lampejo que pusesse em risco as conclusões de anos precedentes. Como é possível, ou melhor, como não rir ao imaginar Freud, já no fim da vida, a despejar a mesma ladainha sobre um paciente igualmente velho? Dois homens, já com um caixão aberto a esperá-los, a vasculhar episódios da infância para reputá-los agentes de ações atuais. É verdadeiramente uma lástima que Voltaire tenha vivido antes de Freud.

A rima é indispensável?

Embora eu, particularmente, muito aprecie o verso rimado, jamais endossaria Bilac e Guimarães Passos, que sustentaram “que em composição alguma de versos se deve prescindir da rima. Ela é indispensável”. Isso por vários motivos. Mas um deles merece menção especial. Não sei como compunham os poetas supracitados, porém parece-me necessário, saltando todo o processo de ideação do poema, que dele seja feito um rascunho. Se quero fazer rimas, pois, esboço primeiro o poema em versos brancos, para em seguida concentrar-me no ritmo, nas rimas e na seleção minuciosa das palavras. Percebo claramente que, preocupasse-me com rimas neste momento do esboço, não faria senão me estorvar o impulso criativo, interrompendo-me o fluxo das ideias para abrir um dicionário, algo absolutamente contraprodutivo. Portanto, tenho de concluir que este impulso criativo, em sua forma espontânea, pede a manifestação em verso branco — para não dizer verso livre. Pois bem: sei que nem todo grande efeito artístico é espontâneo, muito pelo contrário, como quase todo brilho de uma obra é proveniente de detalhes cuidadosamente pensados. A rima, pois, embora seja uma artificialidade, fica justificada. Mas a prática mostra, repetidas vezes, que rimar os versos é adulterá-los, e ainda que se possa ganhar em beleza com fazê-lo, vai-se aquela naturalidade inicial. Finalmente, chego onde quero. Haverá versos em que o poeta se porá num nível de estímulo tão forte que se sentirá a derramar emocionadamente a alma sobre o papel; versos que sairão como uma avalanche, que lhe expressarão o mais íntimo e brotarão com ímpeto e nitidez diferente daquilo que cria de ordinário. Não estou certo sobre o quanto se ganha rimando tais versos, quer dizer, parece-me que o poeta que os deforme para enquadrá-los em formalidades talvez cometa um crime contra si mesmo e insulte o singularíssimo momento em que os concebeu.