Os tempos de miséria cultural são os mais propícios para imergir nas grandes épocas, nas grandes obras e nas grandes realizações. Isso porque tudo nelas estimula um interesse acentuado pelo contraste, não deixando dúvidas sobre onde mais convém direcionar a atenção. Em verdade, mesmo nos tempos mais prolíficos, é pequena a parcela do que subsiste, e portanto grande a parcela do que distrai. Há, é claro, um sentimento especial proveniente da novidade; mas, talvez, esse sentimento desvie a atenção de onde com muito mais proveito ela se poderia concentrar.
É engraçado como uma conjunção de múltiplos…
É engraçado como uma conjunção de múltiplos fatores, como a própria música moderna, a espantosa facilidade de acesso e, ao mesmo tempo, a raridade de um contato fortuito, de um guia natural, dificultou sobremaneira a orientação nas grandes obras da música. Para conhecer razoavelmente um compositor fecundo como Mozart, Bach, Beethoven ou Brahms, não é necessário apenas o gosto incomum pela música clássica: é preciso um esforço consciente e direcionado para conhecê-los, um esforço de pesquisa por um norte que parece escondido detrás do emaranhado de centenas de composições. O livro de Carpeaux, é claro, mata o problema, e cai como um portento nas mãos do musicófilo moderno. Mas muito antes de pensar em lê-lo, a maioria já cedeu à desorientação.
É muito estranho comparar o cenário cultural…
É muito estranho comparar o cenário cultural brasileiro de meados do último século com o atual. De jornais a revistas, da prosa à poesia, havia muito em circulação que, ainda hoje, lê-se com interesse. Quanto à crítica, era exercida por nomes respeitáveis, que faziam o mais difícil: desbravar obras recém-publicadas e arriscar um parecer. O público leitor só ganhava, e desfrutava de um ambiente que, hoje, percebe-se não ser natural. O estranho é que, em míseras duas gerações, tudo aquilo acabou. O florescimento cultural parece ter essa característica: exige décadas de atividade e, quando parece consolidado, é aí que mais esforço exige para não desvanecer.
A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias…
A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias muitas formas poéticas para produzir um forte efeito de variedade. Lendo os seus Canti, a última coisa que se sente é monotonia; e, ainda assim, lá estão sempre os decassílabos e seus quebrados. Contudo, pela variadíssima disposição dos versos e das rimas, nunca se sabe o que vem a seguir. E o cérebro, desafiado e entretido a captar a ordem, vai se satisfazendo do sentido que nunca se permite descair no banal. O problema da forma é real e relevante, mas só se justifica quando verdadeiramente há algo para se dizer.