A diferença entre as obras de Jung e Frankl

A diferença entre as obras de Jung e Frankl e quase a totalidade do que se escreveu em psicologia é que ambos arquitetaram uma psicologia para mentes saudáveis, enquanto o grosso do restante não se aplica senão a estados mentais doentios, ressaltando, sempre e somente, a morbidez de que o homem pode padecer. Um indivíduo minimamente vivido e são que escolha uma obra de Freud ou Adler para adentrar na ciência da mente sairá espantado e desgostoso, tomado de um misto de estranhamento e repulsa porque, obviamente, o homem pintado em tais obras pouco ou nada tem de comum consigo mesmo. E então verá, em cada página, intermináveis classificações de transtornos, complexos e similares, muitas vezes associados a comportamentos naturais, porém justificados através de motivos que parecem insultos diretos àquele que lê. Em Jung, em Frankl, como é tudo diferente! Nestes grandes psiquiatras, que foram também grandes homens, embora se encontre o Freud e o Adler, o alto espírito pode, enfim, se reconhecer.

A ótica taoista

Há uma notável beleza quando se medita sobre a realidade sob a ótica da filosofia chinesa ou, mais precisamente, sob a ótica taoista. O princípio de dualidade justifica-se porque, em última instância, é necessário um equilíbrio, uma harmonia para que o mundo continue existindo. O taoismo é uma doutrina que nos força a vencer, no micro e no macro, o caos aparente, fornecendo-nos tão somente a meditação prolongada como meio de superação. Esta, inevitavelmente, nos conduzirá à conclusão redentora, cujo efeito é a paz. Impressiona notar a aplicabilidade desta que parece uma filosofia demasiado simples, posto seja possível verificar atuantes os princípios que a sustentam onde quer que as lentes sejam direcionadas. É, sem dúvida, uma doutrina digna de admiração.

Tudo indica que completarei um ano inteiro…

Tudo indica que completarei um ano inteiro de dedicação exclusiva a quinze míseros poemas ou, mais precisamente, a uns mil e setecentos versos. Ria, Hugo, ria! E, no fim do processo, não haverá publicação, pois é preciso que os versos descansem — ainda que pareça ser isso o que têm eles feito nos últimos meses. Não fossem estas notas um eficacíssimo meio de dar vazão a ideias que surgem e se vão amontoando, já me veria diante de uma montanha inexpugnável de anotações. Tenho, por baixo, uns quarenta contos perfeitamente idealizados que não me exigem mais que um dia de trabalho para realizarem-se no papel. Além disso, já não sei quantos enredos para romances, peças ou o que for. Até para poemas, há excessos que não puderam ser aproveitados neste volume. E fico aqui a imaginar como, no passado, artistas que não dispunham de secretários organizavam-se após dez, vinte anos de trabalho criativo. Sem um computador, parece-me que eu seria forçado a desistir…

A psicologia moderna, tirando do homem a autonomia…

É curioso como a psicologia moderna, tirando do homem a autonomia, pintando-o como submisso a este monstro criado por Freud, — o “inconsciente”, — acabou por desvalorizar-lhe a própria mente, o contrário do que se poderia esperar. Mesmo Jung, que tão distintamente percebeu o caráter individual da psicologia humana, parece derrapar em algumas falsas noções da psicologia moderna. Afirma ele, com algumas prudentes ressalvas, que nada influencia tão pouco nossa conduta quanto as ideias. E aqui voltamos, mais uma vez, à comparação insultuosa deste “nossa”. Qual “nossa”? Inquestionavelmente, homens diferentes fazem usos diferentes da mente que possuem. Não se há de ser filósofo para se ter uma “filosofia de vida”; e esta, que é senão o resultado prático de ideias, conceitos e julgamentos do indivíduo? Como negar as consequências práticas do raciocínio ao homem de valor? Como continuar com essa sustentação infame de que toda moral é uma construção estritamente coletiva? Se as ideias influenciarem realmente tão pouco o homem, só se pode concluir que este homem, especificamente, trata-se de uma natureza inferior.