Embora não seja possível dizer que haja algo como o método de narrativa ideal, admira ver o autor que intercala sons e imagens, ações e pensamentos, como que estimulando todo o nosso aparato imaginativo. Tal balanço confere o mais das vezes uma dinâmica estimulante às linhas que lemos, e parece grande parte dos efeitos da obra derivarem destas variações que tornam as singularidades mais salientes. A uma cena estática, descritiva, segue-se uma ação repentina, que desemboca em reflexões e assim por diante; quer dizer: cada passagem acaba realçada em contraste com a anterior e com a seguinte; e, talvez, seja isso algo positivo para o conjunto.
Ainda que se viva ponderadamente…
Ainda que se viva ponderadamente, e que se tente planejar o ato a fim de que ele jamais saia irrefletido, e ainda que haja vistoso mérito em fazê-lo, há lances em que toda ponderação e todo planejamento são suplantados por um impulso que surge como necessidade. E notar que este prova-se frequentemente proveitoso! Por vezes, é justamente nele que se define toda uma trajetória, e dele deriva-lhe os melhores frutos. Parece a mente, nesta lógica que beira o irracional, sugerir que um longo e silencioso trabalho precedeu-lhe o estourar meticulosamente calculado. E então, é deixar que estoure…
Parece a economia um problema tão lógico…
Quando lemos alguns economistas, parece a economia um problema tão lógico e tão simples que realmente assusta a estupidez daqueles que a regem no mundo real. Hoje, há uma quantidade mais do que suficiente de exemplos históricos de medidas econômicas que se provaram frutíferas ou desastrosas, de forma que, na imensa maioria das vezes ou, melhor dizendo, no que tange às diretrizes macroeconômicas, não poderia haver dúvida sobre como deve agir aquele que tencione a prosperidade. Mas então parece o pragmatismo teórico absolutamente inaplicável à realidade, em que interesses os mais diversos, quais mesquinhos, quais ingênuos, perversos ou irresponsáveis são colocados em primeiro plano, em detrimento daquele objetivo, já enfraquecido e distante, que deveria nortear todas as medidas econômicas. A conclusão é só uma: o elemento humano inviabiliza qualquer equação.
O uso da tinta e do papel
É com grande entusiasmo que leio notas de escritores justificando, neste século, o uso da tinta e do papel. São os argumentos referentes à produtividade que mais me impressionam: para muitos, o ritmo cerebral parece ajustar-se melhor à escrita manual. Espanto-me por notar que, durante séculos, exatamente assim se fez literatura, por este método que é como avesso ao meu modo de escrever. Não há dúvida que há um certo charme, um certo encanto em ver a tinta no papel, em ver na caligrafia mais um traço da singularidade do autor, em ver a cadência natural da escrita à mão, pela qual lentamente as letras tomam forma, a ideia transforma-se em palavras e a criação mental concretiza-se materialmente. É tudo isso estimulante. Porém… que dizer? Afirmam tais escritores que a morosidade do método favorece a reflexão justa e, portanto, saem as palavras mais precisas. De minha parte, não conheço a escrita senão como um processo muito mais de destruição e reconstrução de frases: a mente, auxiliada pelo velocíssimo bater dos dedos nas teclas, jorra ideias desordenadamente na tela; o cérebro então raciocina e vai ordenando e modelando tais ideias, que vão sendo reescritas de maneira mais adequada. A cada duas frases, uma é completamente apagada e melhor conformada em nova tentativa; no fim do parágrafo, novas correções… Então fico aqui a imaginar que faria eu caso tivesse de adaptar-me ao papel e à tinta: e parece-me, mais do que nunca, justificada a sempre acesa fogueira de Kafka.