Uma decepção amorosa afeta, o mais das vezes, uma camada superficial e menos nobre do indivíduo. Dói, mas é a dor física do animal ferido. Geralmente, não abala o conceito de amor na alma desiludida: é possível encontrar outro alguém. A decepção, porém, quando proveniente de um amigo a quem foi dedicada amizade no sentido único em que esta palavra deveria ser empregada, que eleva as almas envolvidas e enobrece a raça, é como uma punhalada de duríssimas consequências filosóficas e morais. Diferentemente da traição amorosa comum, não é o orgulho que se fere, mas a parte superior da natureza, que não pedia nada e recebeu mesquinhez em troca da generosidade. É algo que enche a alma de desgosto. Arrasa o conceito que se faz dos outros; debilita a capacidade de confiar; mina, de antemão, a disposição para relações futuras… Grande bobagem! Como se esta palavra, exatamente como a outra, já não estivesse corrompida…
O drama de D. Pedro II é o drama de um Camões
D. Pedro II, este homem cuja vida encerra uma comovente tragédia, tragédia que acentuou-se sobremaneira após sua morte, não foi capaz de colocá-la em justa medida nos poucos versos que compôs. São versos fracos, quase inócuos para alguém que lhe desconheça a biografia. Mas alguém que a conheça, e imagine o estado de atrocíssima tristeza em que foram escritos, o desconsolo imensurável do homem cuja virtude foi paga com a mais revoltante injustiça às vésperas da morte, este alguém perdoará os defeitos estéticos e irá condoer-se sinceramente da miséria do autor. Mas aqui residem dois problemas morais que custa admitir: o primeiro, que a arte é indiferente à sinceridade do autor — em arte, o mais hábil poderá superar o mais sincero, ainda que a arte se lhe resuma numa falsificação completa de si mesmo; — o segundo, que pouco importa a elevação moral contida na obra, assim como o caráter daquilo que evoca. É lamentável… O drama de D. Pedro II é o drama de um Camões, mas de um Camões injustiçado em vida e não recompensado pela história, essa maldita insensível em que foram depositadas as últimas esperanças da nobre alma corroída pelo desgosto. Seria diferente, fossem melhores os versos? Quão inútil respondê-lo…
É realmente impressionante como os anos…
É realmente impressionante como os anos, que não parecem nada, que passam imperceptivelmente, desfiguram a realidade até um ponto em que não sobra um único resquício do que um dia foi. Tão próximos um século do outro, e por vezes díspares a ponto de não se reconhecerem. Será tomado de espanto aquele que fizer uma análise minuciosa dos costumes de épocas passadas, em medida idêntica à que resultaria se alguém do passado pudesse vislumbrar o futuro. Em ambos os casos, um misto de estranhamento, repulsa, incompreensão e assombro. Assombro porque, em teoria, a espécie humana sempre foi constituída de homens. Porém, para a sociologia, é possível descrever homens de diferentes tempos como espécies distintas.
A maestria numa ocupação é condicionada ao ponto de partida
Nietzsche disse, em algum lugar, que a maestria numa ocupação é condicionada ao ponto de partida do indivíduo, mais especificamente, a quanto este recebe de legado. Portanto ao filho desejoso de eminência, o recomendado é seguir-lhe os passos do pai. Há nisto uma boa dose de verdade; mas, como sempre, as exceções são mais curiosas que a regra. Que maravilhoso senso de ironia do destino em colocando um Nietzsche como filho de um pastor protestante! e um Cioran, a crescer filho de um padre! Destes e de outros exemplos notamos que a eminência, além do aprimoramento do legado, também aceita a ruptura violenta como ponto de partida.