Para ser normal…

Para ser normal, absolutamente normal, é preciso, em primeiro lugar, frequentar um psicólogo. Só ele é capaz de colocar uma alma perdida no caminho da normalidade. Em seguida, é preciso viver de forma a empregar, no mínimo, metade do tempo útil trabalhando. Diariamente, é necessário expor-se às radiações salutares de uma televisão. Os remédios para ansiedade, depressão e colesterol devem complementar uma dieta centrada em produtos industrializados. As injustiças sociais devem inspirar a mais profunda indignação e o Estado deve ser obedecido independentemente das circunstâncias. Ao lado do travesseiro, um livro de autoajuda. E a mente a repetir o mantra: “Eu sou capaz”.

A psicologia acabou se afundando…

Embora possam estar relacionadas, são coisas completamente diferentes a antipatia pela socialização e a inabilidade social. Introversão não implica, necessariamente, timidez ou inibição. Neste erro caem muitos psicólogos, e os que não caem, erram julgando a primeira um transtorno de personalidade — logo, algo que deve ser corrigido. A psicologia acabou se afundando por não ter definido, desde o princípio, o escopo de sua atuação. Entregou-se aos encantos da novidade e invadiu outros terrenos — terrenos cuja complexidade extrapola-lhe os meios de análise. Procedeu assim classificando padrões comportamentais como se fossem sempre resultado de uma fórmula estúpida, como se o homem não tivesse capacidade de julgar e escolher. Pior do que isso: sem que percebesse, estabeleceu uma escala de valores supostamente universal a ser utilizada como referência para aquilo que é ou não é normal. Destarte, erigiu um modelo humano desprovido de individualidade — um modelo, portanto, extremamente superficial.

A independência em jogo

Penso nestes movimentos literários organizados, nestas tentativas de inovar conjuntamente, nestes conluios que resultaram em revistas e similares, nestas relações pessoais fundamentadas numa suposta afinidade artística… Não posso deixar de concluir que a maior bênção que pode recair sobre um artista é jamais conhecer uma única pessoa inclinada à sua arte. É a independência que está em jogo, a independência plena, inviolável. É o criar como se ninguém jamais pudesse descobrir a criação, é o abrir-se sem constrangimento, sem a possibilidade de conjeturarem correlações desagradáveis, é o jamais ter de ouvir um elogio amigo para, então, ter de retribuí-lo. Deus! como sempre fui ingrato! Obrigado, muito obrigado!

A psiquiatria moderna, invadindo o terreno da filosofia…

A psiquiatria moderna, invadindo o terreno da filosofia, já é uma espécie de doutrina em que eminentíssimos Simões Bacamartes vão a passos largos em direção ao fim que teve o original. Há um modelo de normalidade, e este modelo é o do bobo alegre. Quem nele não se enquadre está indiscutivelmente doente e deve procurar ajuda profissional. Há juízos sobre a vida, sobre o meio, sobre os outros, há condutas deliberadas que só brotam numa mente não saudável. Todas elas, é claro, devem ser tratadas. Um Sêneca, um Schopenhauer, fatalmente sofre de um transtorno. Assim como todos os santos, todos os monges, eremitas de qualquer espécie, poetas, sonhadores, aventureiros e muitos outros. Um Fernando Pessoa, então, é um louco varrido, um doido de amarrar em pé de mesa. E para todos estes, a iluminadíssima psiquiatria moderna já atribuiu uma doença mental. Tudo isso seria engraçado, se não estivéssemos numa época onde as liberdades são gradativamente sufocadas e os indivíduos, cada vez mais, são forçados a seguir uma cartilha comportamental. Não falta muito para que o Estado, calcado na Ciência, proponha-se a corrigir os transtornados, justificando-se pelo Marketing. E então internados os mentalmente enfermos, os nocivos para o bem comum. É possível imaginar perfeitamente o Ministério da Saúde que Orwell não criou operado pelos poderosíssimos sociopatas hodiernos cuja tara por controle extrapola todos os limites já registrados pela história. Que catástrofe!