Para o artista iniciante, intimida o constatar-se…

Para o artista iniciante, intimida o constatar-se precedido de dezenas de séculos e um número incalculável de outros artistas que efetivaram o que ele tão somente pretende fazer. Se adicionamos os críticos e teóricos da arte, teremos então uma infinidade de juízos, escolas, definições daquilo que é ou não é arte, é ou não é bom, deve-se ou não se deve fazer. Nisto, aquele que ainda luta para encontrar a expressão daquilo que sente ver-se-á bombardeado e dificilmente arriscará o primeiro passo, sendo mais cômodo calar-lhe a voz interior. A verdade, porém, é que o artista tem de assumir-se, e será tanto melhor quanto antes o fizer. Todo esse imenso passado, que encanta e intimida, deve ser aproveitado na medida em que lhe seja útil, e jamais deve configurar um obstáculo para a expressão daquilo que lhe pareça justo. É preciso coragem! E, ademais, personalidade para executar exatamente aquilo que quiser.

O difícil, em arte, é aproveitar inteligentemente…

O difícil, em arte, é aproveitar inteligentemente as manifestações espontâneas que surgem durante o processo, inserindo-as na estrutura predefinida sem prejudicar o conjunto. Com frequência, os pontos mais altos de uma obra são oriundos de lampejos inesperados que o autor soube aproveitar. O todo, é certo, carece de ordem; e ordem não se faz de uma centelha que brota subitamente no espírito. Mas o artista, se surpreendido da ideia adventícia, fará muito bem transferindo-lhe este efeito surpresa para a obra. A arte ganhará.

Filósofos antigos…

Linhas de Chamfort:

Ce que j’admire dans les anciens philosophes, c’est le désir de conformer leurs moeurs à leurs écrits : c’est ce que l’on remarque dans Platon, Théophraste et plusieurs autres. La morale-pratique était si bien la partie essentielle de leur philosophie, que plusieurs furent mis à la tête des écoles, sans avoir rien écrit : tels que Xénocrate, Polémon, Xentippe, etc. Socrate, sans avoir donné un seul ouvrage et sans avoir étudié aucune autre science que la morale, n’en fut pas moins le premier philosophe de son siècle.

Ah, filósofos antigos! Chamfort muito lamentaria notasse o rompimento completo com a realidade que, se os não extinguiu no ocidente, dificultou-lhes sobremodo a aparição. Com a “moral prática”, faz hoje a filosofia o que faz com todos os outros temas: transforma-a em abstração; malbarata-a como alicerce de uma construção lógica apartada do concreto. É, em verdade, o movimento inverso. Por isso, nem ao erro poder-se-ia atribuí-lo, o que se deu foi um desvio absoluto de finalidade. O désir de que fala Chamfort já não pulsa nos ditos filósofos ocidentais que, certamente, jamais veriam num Sócrates um semelhante.

Levar a vida demasiado a sério

Diz Chamfort:

Le théâtre tragique a le grand inconvénient moral de mettre trop d’importance à la vie et à la mort.

É verdade… Não há negar que o levar a vida demasiado a sério traz inúmeros inconvenientes, a começar pela angústia inevitável. Dando muita importância à vida e à morte e percebendo que ambas, em grande medida, escapam-lhe ao controle, o espírito experimentará o desespero. Porém, algo se há de notar: o realce é necessário para que o teatro comova; a mensagem de uma peça jamais terá o mesmo efeito se desprovida do exagero dramático. Para dizer como Nelson: a ficção, para que purifique, precisa ser atroz. Mas, talvez, sejam estes inconvenientes necessários não só ao teatro, como à própria vida, posto que em completa indiferença o homem permanecerá, sempre, exatamente onde está.