Uma sensação inexplicável de dever persegue-me, já há muito tempo, e exige-me a retratação do drama de D. Pedro II. Em mente, já o realizei em versos, peças, roteiros de cinema… Mas, em verdade, realizei-o por me não poder livrar desta obsessão. Por quê? É engraçado que, de praxe, sempre que decido finalmente executar a tarefa, dezenas de motivos fazem-me abandoná-la. E a imagem deste homem continua vindo-me em mente ao escutar o Réquiem, de Mozart. Sêneca, Sócrates e outros muitos cuja injustiça do fim que tiveram salta aos olhos me não inspiram sensação semelhante. É D. Pedro II, somente ele, e por algum motivo tem de ser ele. Não sei que dizer…
É curioso notar que muitos grandes artistas…
É curioso notar que muitos grandes artistas, especialmente nos séculos XIX e XX, travaram relações pessoais entre si. Curioso porque, algo que deveria configurar a normalidade, parece a exceção. Séculos anteriores, em que as distâncias pareciam maiores, viam-se mais ou menos dependentes de um capricho do destino em concentrar os espíritos superiores em determinadas localidades, como maravilhosamente ocorreu algumas vezes na história. Mas, ainda assim, algo a mais é preciso para que uma amizade seja estabelecida. E tanto os caprichos, quanto este algo a mais parecem ter abundado nos séculos XIX e XX, em que foi enorme a quantidade de grandes nomes que se conheciam, que eram verdadeiramente amigos. Não posso notá-lo, sem sentir um sincero contentamento por todos eles.
Nesta era em que há mais vozes que ouvidos…
Nesta era em que há mais vozes que ouvidos, mais livros que leitores e mais facilidade que vontade de aprender, é improvável que se erga uma verdadeira autoridade intelectual e alcance o prestígio de um Voltaire, de um Goethe ou de um Walter Scott. A atenção que angariasse para si seria, no máximo, passageira, e portanto dificilmente gozaria do sólido e duradouro reconhecimento que grandes intelectuais gozaram noutros tempos. Isso não mostra senão uma característica desta época de atenção difusa e bombardeada ininterruptamente. É temível o que pode provir de uma época não só carente de autoridades verdadeiras, mas guiada por falsas; porém, de toda forma, o que se há de concluir é que, ao intelectual, tudo se tornou consideravelmente melhor.
Um exercício contínuo de paciência
A poesia, essa arte terrivelmente difícil, é um exercício contínuo de paciência. Não adianta: a pressa, em poesia, é sempre o erro. É um verdadeiro transtorno saber que, por um lado, é preciso se aproveitar das manifestações espontâneas, que brotam como rajadas e conferem grande potência aos versos; mas, por outro, é preciso deixar que os versos esfriem, solidifiquem, e então esmerá-los calmamente, ajustando o ritmo, trocando palavras, apurando a expressão. Dói sobremaneira a punhalada que é notar uma mácula originária da afobação. Todo um exaustivo trabalho, pois, conspurcado quando já não é possível repará-lo. Dele, ao artista, ficará somente a falha, somente a frustração. Por isso o labor poético é um exercício de autocontrole, de paciência, em que o poeta deve atuar também como estrategista, liberando e contendo-lhe os impulsos, suspeitando de si mesmo ainda quando concluirá que não havia de fazê-lo. E, ainda assim, não será suficiente…