O cérebro humano sempre acaba humilhado

O cérebro humano sempre acaba humilhado quando cede à tentação irresistível de ordenar o irracional. Seria muito mais fácil se o aceitasse em suas ilimitadas manifestações, e assumisse para si mesmo os próprios limites. Não se pode concatenar o espontâneo, o inédito, o excepcional sem que se corra um risco imenso de cair no ridículo. O erro é fruto da presunção. Se a razão exige respostas, carece de lógica, deve contentar-se o mais das vezes com o processo mesmo de análise, com o simples reduzir os possíveis enganos através da observação atenta, e evitar, quanto possível, o julgamento precipitado. O irracional existe, impõe-se, e não dá a mínima para suas considerações.

Todo artista possui inclinações e deficiências

Todo artista possui inclinações e deficiências. Há temas que, por uma disposição inata, saem-lhe com naturalidade e brilho; já outros, apresentam-lhe dificuldades. Por isso, em primeiro lugar, é importante que o artista seja capaz de identificá-los e classificá-los. Em seguida, é necessário empenho para desenvolver-lhe justamente as debilidades, e isso se dá exercitando a representação daquilo que lhe é oposto, explorando formas, arriscando. Em arte, é certo, há escolhas; mas também há fraquezas, e estas, se não assumidas, a seu modo conseguirão sempre se entranhar como defeitos evidentes. Completo será, assim, o artista que através do esforço converter em força aquilo que lhe não é natural.

Nunca deixa de me impressionar…

Nunca deixa de me impressionar o ambiente cultural experimentado e descrito por homens de outros tempos. Para mim, é imergir numa realidade paralela que eu julgaria impossível não houvesse tantos e tantos relatos em diferentes línguas e de épocas distintas. Tudo parece apontar-me que eu e minha circunstância somos a exceção. Cada vez que percorro esses diários, cartas e similares, não é sem um sorriso no rosto que faço minhas notas. Cartas! Já não existem cartas; o gênero epistolar tornou-se quase poético. E pensar em toda essa literatura concebida sob o cheiro de tinta, penas, candeeiros, móveis robustos… e do lado de fora teatros, óperas, saraus… é toda uma realidade que impressiona sobretudo pelo contraste. Talvez esteja tudo realmente muito bem, e seja um privilégio poder apreciá-la com este encanto só conferido pelo tempo…

A ideia da Universidade e as ideias das classes médias

O quadro pintado por Carpeaux no ensaio A ideia da Universidade e as ideias das classes médias é de uma atualidade impressionante. O cenário, aliás, não fez senão se agravar. O “regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos” é um fenômeno consumado no ocidente. Muito em razão desta tendência às especializações, necessárias e destrutivas, que empurraram para o limbo a alta cultura e cercearam as possibilidades para o indivíduo comum que, logo em tomando conhecimento de si mesmo, vê-se o mais das vezes esmagado pelo império da necessidade, que hoje abocanha-lhe uma parte tão grande da vida que pareceria absurda em tempos passados para alguém dito “livre”. As universidades, consoante à tendência hodierna, ensinam profissões e possibilitam carreiras: é o que pede o mercado. A formação cultural já não faz parte do escopo dos cursos e, assim, o aluno deixa hoje o ensino médio semianalfabeto para passar o resto da vida sem escutar uma única palavra sobre história ou literatura. Crescem as universidades, uma massa enorme gradua-se, especializa-se, coleciona títulos acadêmicos e angaria prestígio, dinheiro, reconhecimento; “mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas”. É um desastre.