A queda obrigatória

Diz Mário Ferreira dos Santos, em Filosofia da crise:

Consideramos como um fator de degenerescência de toda a construção do ser humano, aquele momento em que ela começa a subir os degraus do absolutismo. Esses degraus podem ser expostos da seguinte maneira:

1) uma doutrina é considerada como certa e eficaz;
2) como a mais certa e eficaz;
3) como a única certa e eficaz.

Ao alcançar esse terceiro ponto, toda e qualquer objeção é considerada herética. Não é mais possível, nesse momento, transigir com os adversários, porque a própria defesa da doutrina exige uma vigilância constante contra todos os opositores, e até contra partidários vacilantes, transigentes ou tíbios, e toda vacilação é uma ofensa aos princípios absolutamente VERDADEIROS, sobre os quais não se pode permitir o menor vislumbre de dúvida ou a menor suspeita.

E se essa doutrina ou sistema dispuser do poder físico, ela o exercerá inevitavelmente, empregando a força para combater opositores e partidários dúbios e vacilantes.

Não é possível descrever com mais precisão a práxis vigente no ocidente moderno. A prisão ideológica em que se meteu evidencia o zênite já atingido e a queda obrigatória. Tudo, tudo repetindo-se novamente… E este policiamento autoritário destes dias, como mostra Mário, não faz senão instigar uma reação contrária violenta, que acabará por destruir todos e cada um dos valores tidos como supremos pelos sacerdotes da intolerância. Tendo a inércia impossível, escalar degraus parece compulsório; mas, do topo, só há movimento possível para baixo.

Temáticas atemporais

Particularmente, restrinjo-me a arte a temáticas que julgo atemporais. Isso, noutras palavras, quer dizer que recuso-me terminantemente a uma análise pormenorizada dos valores deste tempo, por não desejar infestar-me a literatura de uma moral tão torpe e desprezível. Farão bem no futuro se jamais derem atenção às correntes sociológico-morais que este século pariu, que não passam de ideologias vergonhosamente infames, lapsos estúpidos na história do pensamento humano.

A nobreza da filosofia especulativa

Foi Mário Ferreira dos Santos, e não outro, quem mostrou-me cabalmente a nobreza da filosofia especulativa, não porque até então só havia entrado em contato com brincalhões e vaidosos, mas porque nele, mais que nos outros, vi pulsar a necessidade real do exercício especulativo. Necessidade oriunda de interrogações vitais que encontraram neste método a possibilidade única de solução segura. A meticulosidade, o estender-se e esmiuçar saem não como exibição pretensiosa, mas como exigência metódica inerente da gravidade das interrogações. Como em Tomás de Aquino, digressões, demonstrações numerosas: mas tudo, sempre, objetivando clareza, objetivando a exposição precisa. Grande mente!

Raciocínio intragável

Sinto-me perfeitamente capaz de imaginar efeitos impressionantes provenientes das práticas tântricas budistas, que não são senão um processo de reeducação mental. Mas nem o budismo, nem qualquer outra escola oriental pode convencer-me do contrassenso de negar a realidade, não importa quão maravilhosos efeitos prometam com o fazê-lo. Compreendo os perigos de valorar sobre o erro, compreendo, sobretudo, a necessidade de romper com os laços terrenos; mas minha mente rechaça violentamente o considerar-me um nada em essência, envolto num nada desprovido de qualquer fundamentação: zeros e mais zeros, e nunca alguma coisa. Não! Há ilusões e posso distingui-las porque há, também, algo não ilusório. Há a mente e os produtos da mente, como há uma realidade exterior que se lhes difere. Lamento, lamento, mas não posso aceitar como fenômenos idênticos um soco na cara imaginário e um soco na cara real — e posso, quem diria!, provar o que digo.