Parece fictícia a biografia de Inácio de Loyola. Lê-la neste século, lê-la no ocidente observando que se tornou o ocidente, suas grandes cidades, suas preocupações, é como colocar-se diante de uma narrativa absurda. É de causar assombro a simplicidade como fatos estupefacientes se apresentam nesta “Autobiografia”, redigida pelo P. Luís Gonçalves da Câmara, que limitou-se a transcrever quanto ouviu da boca de Inácio. Algumas poucas vezes, lemos Inácio ter corrido risco de vida em sua trajetória, mas a impressão que ficamos é que, desde que saiu da casa paterna, esteve ele sempre em constante ameaça. Prisões, julgamentos, perseguições, doenças, incrível penúria… é difícil imaginar condições mais severas para este homem reputado santo. O simples superar a sexta década de vida, como fê-lo, já se afigura a nós, homens mal-acostumados, um verdadeiro milagre.
Parece incompleta uma obra que não esboce…
Parece incompleta uma obra que não esboce, não arrisque soluções para os problemas que propõe. É inevitável… O alto espírito tem de esforçar-se por uma superação de si mesmo, tem de atrever-se ainda que falhe, ainda que julgue-lhe inútil o esforço após a batalha. É a única forma de aproveitar o juízo como aparato estimulante, como delineador de barreiras a serem vencidas, como desafiante dos limites da vontade. Expor problemas, portanto, parece apenas o marco inicial de um trajeto intelectual que se lhes desprende.
A fecundidade de Victor Hugo
Parece uma afronta, um insulto constatar Victor Hugo ter composto mais de cento e cinquenta mil versos em apenas uma vida. Cento e cinquenta mil! É inacreditável, uma verdadeira humilhação defrontar essa fecundidade inatingível, esse monumento poético proveniente da pena de um único homem. Se exercitamos a matemática, chegamos a uma média de produção diária que só parece razoável a alguém que empregue a vida inteira apenas em dormir e compor versos. Considerando todo o processo criativo que envolve a ideação, planejamento, estruturação, realização e apuro; considerando que uma mente normal esgota-se no cansativo trabalho de fisgar palavras no dicionário, e que portanto é inviável, desestimulante e até contraproducente uma jornada de trabalho muito longa, como justificar Victor Hugo? Como aceitar-lhe a obra poética, sabendo haver peças, romances, ensaios sob a mesma assinatura? É espantoso…
Há poucos exercícios tão saudáveis…
Há poucos exercícios tão saudáveis e estimulantes quanto personificar o imortal Bernardo Soares. Em mente, conversar com os inexistentes ou distantes pares, viver o que as circunstâncias impedem, criar o que a vida não permite… tudo isso numa prática que progressivamente enriquece os detalhes, altera os cenários, amplia-se e evolui. O fazê-lo é abrir uma nova dimensão para a vida, é engrandecer-se mediante experiências impossíveis, aperfeiçoando o raciocínio, desafiando-se, experimentando emoções todas novas num plano onde não há limites ou impedimentos. É deixar, por fim, o disfarce de ajudante de guarda-livros para efetivamente viver a realidade que escolher.