Filosofias da afirmação e da negação, de Mário Ferreira dos Santos

Disse, se não em ato de coragem, ao menos de honestidade intelectual, que a obra máxima de Nagarjuna pareceu-me delirante. Parei por aí. E eis que agora, após cerca de dois meses, entro em contato com esta Filosofias da afirmação e da negação, deste enorme Mário Ferreira do Santos, que esmaga metodicamente cada uma das linhas de Nagarjuna que tanto me estranharam, e que não arrisquei aventar o porquê. Mário, nesta obra, deixa quem a lê na difícil situação de concordar ou assumir-se covarde, senão desonesto. Não há espaço para a neutralidade diante da argumentação demolidora que exige o assentimento respeitoso. Saem do debate arrasados o niilismo, o ceticismo, o relativismo, o idealismo, o evolucionismo… e é impressionante como assim Mário prepara o solo sobre o qual ergue sua filosofia positiva, dando-lhe a feição de imperiosa ante as correntes intelectuais em voga. É inegável: Mário Ferreira dos Santos é um fenômeno da mais alta categoria no pensamento ocidental.

Compromisso gravado na pedra

A vantagem destas notas é que através delas posso metodicamente captar e registrar impressões efêmeras que experimento enquanto leio, durmo ou componho, e que provavelmente seriam desperdiçadas. Por outro lado, já divirto-me porque sei, enquanto as lapido, que amiúde estou a precipitar-me. Não interessa. Leio uma passagem, tenho uma ideia: essa ideia irá converter-se em nota; é este um compromisso já gravado numa pedra imaginária. Analisando friamente, creio que sejam estas linhas em prosa a concretização de um método rigoroso de aproveitamento mental.

A prosa de Tomás de Aquino

Tomás de Aquino deveria ser tomado de modelo por todos aqueles que escrevem tencionando convencer. É curioso notar que sua prosa, simplicíssima, emana um brilho invejável decorrente da clareza com que suas frases revelam-se a quem as lê. Um incauto poderia supor que acaso seria ela uma prosa natural, espontânea. Oh, inocência! Tal resultado é impossível se não amparado num esforço último e constante por clareza. É verdade, é verdade: muitos detalhes, muitas sutilezas… mas deleita o apreciar linhas tão precisas, e é admirável quando se lhes nota motivadas por tão profunda meditação.

Sobre Deus, de Mário Ferreira dos Santos

O que faz Mário Ferreira dos Santos nesta obra intitulada Sobre Deus é digno de nota. Após uma breve exposição sobre o tema escabroso, segue-se um debate de altíssimo nível em que são confrontados simplesmente os melhores argumentos a favor e contra a existência de Deus. Mário, embora externe de antemão sua posição pessoal a respeito do problema, deixa-lhe os opositores falarem livremente. O resultado é uma obra, sobretudo, esclarecedora, cujo desfecho expõe fatalmente as contradições terríveis em que se atiram aqueles que negam a existência de Deus, isto é, a existência do criador supremo, eterno, autossuficiente e imprescindível. Pela lógica, é forçoso admiti-lo. Mas há mais, há um efeito interessantíssimo decorrente da honestidade intelectual e da sabedoria de Mário: não se tem notícia de argumentos mais fortes, completos e convincentes contra a existência de Deus que os levantados pelo barão de Holbach; e estes permeiam a obra sem obstáculos, livres para evidenciar-lhes a potência. Ocorre que, quando confrontados com as provas lógicas irrefutáveis oferecidas pelos grandes estudiosos do problema, as provas lógicas que exigem a existência de um princípio criador e exige-lhe as qualidades que tanta polêmica têm gerado há tanto tempo, os argumentos de Holbach perdem a força, ainda que não estejam sendo diretamente rebatidos. Que efeito! A lógica se impondo soberana! Tudo que poderia ser dito contra Deus está dito, e dito de forma emotiva, eloquente, reunindo aspectos o bastante para que nenhuma alma permita-se indiferente. E, ainda assim, a argumentação fracassa completamente diante de um exame acurado…