Parece forçoso esboçar respostas

Imergindo-se em problemas, chega um momento em que parece forçoso esboçar respostas. Do contrário é desistir ou, ao menos, deixar de avançar. Muito se pode dizer das respostas em que, por exemplo, culminou a obra de Dostoiévski; o que não se pode dizer é que esta não tenha encarnado um ciclo completo. Nela estão representados problemas múltiplos em variadas manifestações, e para todos Dostoiévski aponta a solução —aceite-se ela ou não. Não há fugir: embora seja possível postergar o enfrentamento último, essa necessidade velada parece sempre à espreita a perguntar: “E então?” — e aparenta questão de honra apresentar-lhe uma conclusão.

A literatura, para ser agradável…

A literatura, para ser agradável, deve escusar-se do julgamento e da expressão de tormentos. Assim afaga, em vez de agredir o leitor. Mas convém perguntar: que espécie de artista optaria por semelhante postura? ou antes: como justificar o impulso artístico escrevendo agradavelmente? O que parece é que a literatura agradável é, também, a literatura dissimulada, a que carece de sinceridade e verve, a que enfastia pela futilidade —a despeito de sua “leveza”. Disso conclui-se que é improvável que o artista sincero não suscite desconforto e, por conseguinte, não angarie uma forte rejeição.

Uma leitura destruída por um tradutor

Continuo impressionado com a façanha de um tradutor que arruinou-me a experiência com o Yoga sutra. Não me contive e pesquisei sobre o homem: encontrei, no site de uma universidade britânica, uma foto em que pude vê-lo, careca e sorridente, acima de um longo texto que detalha tudo quanto ele estudou desde o berço e todos os seus veneráveis títulos acadêmicos — e para ver como as aparências enganam: já estava a dizer que o sujeito lembra Buda! O meu impulso foi buscar uma maneira de contatá-lo, um telefone, e-mail ou qualquer outra coisa. Logo desisti da ideia, mas o espírito impelia-me a dizer-lhe: “Senhor mestre doutor, os seus comentários são simplesmente insuportáveis! Ler a sua tradução do Yoga sutra é como tentar assistir a um filme com alguém ao lado pausando-o a cada cena para explicar-lhe todos os detalhes, a filmografia do elenco, o contexto cultural da história, a fase exata do ciclo menstrual da esposa do diretor no ato da filmagem… tudo isso enquanto desejamos simplesmente que o filme aconteça, que uma cena siga em sequência da outra, para que possamos conectá-las, entendê-las, e travemos contato direto com o filme! Mas o senhor, não!, o senhor não o permite de jeito nenhum! o senhor pausa o filme a cada fala, para cada frase o senhor quer explanar, de imediato, a semântica das palavras, o significado subliminar das inflexões, as conotações simbólicas do diálogo… Senhor, faça um favor ao mundo: pare de comentar livros! Pare, por favor, pare imediatamente! Exima os leitores dos seus comentários!”

Meditando com o Yoga sutra de Patanjali

Incomodado por não saber sânscrito, puxo uma tradução inglesa do Yoga sutra de Patanjali e dá-se uma cena espetacular. Naturalmente, puxo o Yoga sutra interessado em ler os sutras que o compõem. Mas não é o que ocorre. Abro o livro e o tradutor, após dizer-me o quanto é difícil traduzir o sânscrito, conta-me detalhadamente toda sua trajetória acadêmica, fazendo questão de citar cada um dos temas que estudou e se especializou, cada um de seus artigos publicados, teses de mestrado e doutorado, explicando-me em seguida como são ricas as filosofias indianas, como são bestas os tradutores que não estudaram como ele, que não se especializaram em tantas áreas como ele se especializou, que ignoram a metaética e que não traduzem com um método tão arguto e diligente como o seu. Nisto, sou arrastado por uma introdução de inacreditáveis sessenta páginas! Acabou? Não acabou. A obra começa e descubro que o tradutor é, também, comentarista, e que seus comentários não se situam no rodapé ou no final do texto, mas interrompendo as linhas do autor. Para cada sutra, — e há sutras que limitam-se a uma frase, — o tradutor anexa-lhe em seguida, não tendo sequer a humildade de diminuir o tamanho da fonte, de uma a sete páginas de comentários! Que é isso? Pergunto com sinceridade: como uma obra apresentada desta maneira pode ser vendida com o título original? Segui o comentarista até perceber que, definitivamente, estava diante de uma obra desfigurada, que gera tudo, menos a impressão da original. Ler um livro de sutras é pausar, após cada aforismo, e ruminá-lo em mente. Mas isso é impossível quando logo em seguida o tradutor enceta falação interminável! O efeito gerado é exatamente o contrário: a obra perde-lhe por inteiro o caráter sintético, vai-se-lhe embora a densidade, passa de uma coletânea de sutras para um extenso e prolixo estudo de hermenêutica e filosofia comparada. É isso o que puxei da prateleira para ler? Não, não é. Independentemente da relevância dos comentários, o comentarista proíbe-me de pensar e absorver diretamente a obra, desviando-me a atenção e simplesmente impedindo a obra de falar em sua cadência natural. Termina em vírgula um sutra, e encontro-lhe a sequência quando já nem lembro sobre o que falava. Abro o Yoga sutra e leio o especialista em metaética e filosofia da linguagem; abro o Yoga sutra e, após cada aforismo, em vez de meditar calmamente, tenho o impulso de levantar-me e berrar: “Cale a boca, homem! Respeite a obra e carregue para longe de mim sua mesquinha promoção pessoal!” Que maravilha… alcanço a proeza de fritar-me os nervos com um manual de meditação!