Ainda que seja incômodo assumi-lo, — e mais ainda justificá-lo, — parece haver, na biografia de todo grande homem, um momento em que o destino faz o seu chamado e, de praxe, porquanto falamos de grandes homens, estes cumprem o seu papel. É sempre possível identificar a circunstância emblemática cuja resposta — o ato — resulta na concretização da personalidade. Pode-se, ainda, adicionar que tal circunstância configura o ápice de uma biografia, o ponto onde a individualidade se afirma e se distingue e, já que falamos de destino, a própria sorte é definida. A história oferece-nos inumeráveis evidências para essa desagradável constatação que parece nos sugerir que a grandeza de seus personagens limita-se a aceitar, conscientemente ou não, o destino que lhes é reservado. Oh, nota!…
O artista deve empregar todos os meios de que dispõe…
Já disseram — Pessoa? — que o artista deve empregar todos os meios de que dispõe para dar luz à própria obra. Do contrário, as dificuldades não serão vencidas e, provavelmente, ela não sairá. É mister que o artista construa um ambiente propício, molde-lhe a vida em redor do objetivo central; que tenha um horário diário reservado à obra, horário que represente o cerne da rotina e ao qual chegue, todos os dias, em sua melhor disposição. Isso por anos a fio, por quanto lhe durar a existência — sempre ciente, como o era o próprio Pessoa, de habitar o presente pertencendo integralmente ao futuro.
A constatação da fragilidade da vida
O cérebro humano, máquina programada para buscar e identificar padrões, — mesmo onde os não há, — só coagido admite as conclusões provenientes da constatação da fragilidade da vida. Parece-lhe antinatural ter como determinante e presumível aquilo que, num átimo, transforma bruscamente a realidade. A falsa lentidão do tempo o ilude, a morosa mudança de estados parece-lhe conduzir a um fim inexistente — e a máquina, assim, dá luz a juízos errôneos sobre a existência. A dinâmica imprevisível da vida aparenta querer forçá-lo a aceitar que nem tudo resume-se a uma relação de causa e efeito; mas, para ele, o fazê-lo é confessar a própria fraqueza e sucumbir ao irracional.
Nelson Rodrigues é um dos raros autores brasileiros…
Nelson Rodrigues é um dos raros autores brasileiros cuja literatura tem valor universal. Isso ocorre, simplesmente, porque Nelson não brinca de criar histórias, não se limita a dizer quão luminoso raiou o sol ou quão triste se encontrava uma personagem. Nelson julga, o mundo e o homem, e expõe uma interpretação pessoal da existência. Aqui reside o distintivo que parece faltar à maioria dos autores brasileiros. Noutras palavras, poder-se-ia dizer: a literatura de Nelson encerra uma filosofia particular.