O quebra-cabeça existencial

Já se foram duzentas páginas deste “Papus” e confesso não fazer ideia do que havia nelas. Desde o princípio, foi começarem as analogias infinitas, a matemática criativa, a semântica subliminar, os pantáculos, as tabelas que seguem-se de tabelas e tabelas, e coloco-me a dimensionar o tédio do deus que planejou tudo isso para um investigador como “Papus” desvendar-lhe a criação. Se foi assim mesmo, é certo que este deus deve ter explodido de alegria com o tal “Papus” que, montando o quebra-cabeça, livrou-o da solidão. É como se tivesse encontrado um companheiro para jogar. Porém, com a imparcialidade de um psicólogo, diagnosticaria que este deus está a um triz do suicídio.

O ocultismo moderno

Começo em Helena Blavatsky, — novamente, graças a Pessoa, — sigo por Éliphas Lévi, Max Heindel, A.P. Sinnet, e chego agora em Gérard Encausse, esse tal “Papus”. Que dizer? É incrível como sou resistente. Meu entusiasmo com o chamado ocultismo moderno durou pouquíssimas páginas. E mesmo assim sigo dando crédito aos autores, fingindo não estar farto desse vocabulário repleto de “mistérios”, “chaves”, “segredos”, analogias incrivelmente tediosas — para não dizer estúpidas… Leio-os e sinto a presença física de Voltaire, instigando-me a zombar dos reveladores que ocultam o próprio nome. Não, meu amigo, não o farei… Interessante lembrar que disse outro dia nunca ter experimentado a sensação de estar diante da revelação de uma verdade. De uma mentira, porém… calma, muita calma, que já cometeríamos a injustiça de misturá-los todos no mesmo saco.

A poesia é uma construção musical

A poesia é uma construção musical em que a melodia das letras entranha-se no ritmo dos versos. Sem ritmo, não há poesia. Tire-se a rima, construa-se em versos irregulares, invente-se o que quiser — mas sem ritmo, não há poesia. “Se é assim, o que é a chamada poesia concreta?” Qualquer coisa, menos poesia. Como chamar poema uma construção ilegível, indeclamável? Se queriam inventar, que inventassem também um nome para a criação — “concrema”? Disto, é claro, não se conclui que esta chamada poesia concreta não seja arte; de fato ela é, mas uma arte visual, uma arte para ser contemplada, não para ser lida ou declamada. Que atirem as pedras! Admito emocionante deparar-me com um concrema em que a palavra “amor” está genialmente disposta em formato de coração; mas continuarei a julgar o concretista como artista visual, e não como poeta.

Parece haver consenso de que um poema deve ser declamado como prosa

Parece haver consenso de que um poema deve ser declamado como prosa ou, melhor dizendo, como interpretação dramática. De onde essa ideia? É verdade: declamando “dramaticamente”, pode-se expressar emoção, pode-se fazer uma declamação apaixonante — o que não se pode, definitivamente, é transmitir a quem escuta o ritmo do poema. A razão é muito simples. O que é ritmo, na música? É a relação entre notas musicais e silêncio dentro de um compasso. O que é compasso? É um intervalo regular que se repete por quanto tempo durar a composição. Em música, toque-se as mesmas notas desrespeitando a relação que elas travam entre si, e foi-se o ritmo, foi-se a própria música. Se desejamos acelerar a execução de uma peça, alteramos o chamado tempo, que é a duração de cada unidade do compasso — ou seja, alteramos proporcionalmente a relação de todas as notas musicais dentro da composição. Se tencionamos uma execução mais lenta, basta que façamos o processo contrário. O que não podemos alterar nunca — ao menos, sem que a música seja desfigurada — é o ritmo da composição; e o ritmo, como ficou dito, exige regularidade. Por que seria diferente na poesia? De fato, não é. Se os versos de um poema regular são declamados em durações variáveis, se a entonação das sílabas não segue uma regularidade, se a pausa obrigatória e padrão no final de cada verso é desrespeitada, não há como transmitir o ritmo de um poema. É impossível! Ouvindo-se o que estamos a denominar “declamação dramática”, não se pode identificar onde começa e onde termina o verso, ou quais pés o compõem — o que não ocorre quando escutamos alguém a cantar um poema. E se consideramos que o ritmo é a essência de um poema, como justificar essa maneira de declamação? Quem inventou essa regra de que um poema não deve ser cantado? Acaso a lira, aos gregos, não amparava o canto? Lamento muito, lamento em várias línguas: mas para aqueles que consideram o poema uma construção melódica, declamá-lo destituindo-lhe da musicalidade parece antinatural — independente de quantos diplomas colecione o declamador.