Não é possível exagerar os efeitos positivos da rotina e do planejamento na execução de uma obra difícil e demorada. Poder-se-ia dizer de ambos mandatórios, não houvesse, como sempre, exceções que invalidam a regra. O planejamento transforma a imensidão do trabalho em pequenas tarefas; graças a ele não há pensar quando se deve simplesmente executar; ele facilita, direciona o esforço, ilumina o caminho a ser percorrido, veta de antemão frustrações injustificadas — e a lista poderia ser aumentada ao infinito. Da rotina, escusado é dizer da força do hábito: a rotina representa a vitória antecipada sobre todas as barreiras psicológicas; é a certeza do avanço e a conversão da efetivação do planejamento numa questão de tempo. Em resumo: rotina e planejamento são armas que arrasam dificuldades e garantem o enfoque no objetivo final.
Parece forçoso esboçar respostas
Imergindo-se em problemas, chega um momento em que parece forçoso esboçar respostas. Do contrário é desistir ou, ao menos, deixar de avançar. Muito se pode dizer das respostas em que, por exemplo, culminou a obra de Dostoiévski; o que não se pode dizer é que esta não tenha encarnado um ciclo completo. Nela estão representados problemas múltiplos em variadas manifestações, e para todos Dostoiévski aponta a solução —aceite-se ela ou não. Não há fugir: embora seja possível postergar o enfrentamento último, essa necessidade velada parece sempre à espreita a perguntar: “E então?” — e aparenta questão de honra apresentar-lhe uma conclusão.
A literatura, para ser agradável…
A literatura, para ser agradável, deve escusar-se do julgamento e da expressão de tormentos. Assim afaga, em vez de agredir o leitor. Mas convém perguntar: que espécie de artista optaria por semelhante postura? ou antes: como justificar o impulso artístico escrevendo agradavelmente? O que parece é que a literatura agradável é, também, a literatura dissimulada, a que carece de sinceridade e verve, a que enfastia pela futilidade —a despeito de sua “leveza”. Disso conclui-se que é improvável que o artista sincero não suscite desconforto e, por conseguinte, não angarie uma forte rejeição.
Uma leitura destruída por um tradutor
Continuo impressionado com a façanha de um tradutor que arruinou-me a experiência com o Yoga sutra. Não me contive e pesquisei sobre o homem: encontrei, no site de uma universidade britânica, uma foto em que pude vê-lo, careca e sorridente, acima de um longo texto que detalha tudo quanto ele estudou desde o berço e todos os seus veneráveis títulos acadêmicos — e para ver como as aparências enganam: já estava a dizer que o sujeito lembra Buda! O meu impulso foi buscar uma maneira de contatá-lo, um telefone, e-mail ou qualquer outra coisa. Logo desisti da ideia, mas o espírito impelia-me a dizer-lhe: “Senhor mestre doutor, os seus comentários são simplesmente insuportáveis! Ler a sua tradução do Yoga sutra é como tentar assistir a um filme com alguém ao lado pausando-o a cada cena para explicar-lhe todos os detalhes, a filmografia do elenco, o contexto cultural da história, a fase exata do ciclo menstrual da esposa do diretor no ato da filmagem… tudo isso enquanto desejamos simplesmente que o filme aconteça, que uma cena siga em sequência da outra, para que possamos conectá-las, entendê-las, e travemos contato direto com o filme! Mas o senhor, não!, o senhor não o permite de jeito nenhum! o senhor pausa o filme a cada fala, para cada frase o senhor quer explanar, de imediato, a semântica das palavras, o significado subliminar das inflexões, as conotações simbólicas do diálogo… Senhor, faça um favor ao mundo: pare de comentar livros! Pare, por favor, pare imediatamente! Exima os leitores dos seus comentários!”