O leitor ideal

Reviso-me as notas e sorrio de minhas irritações. A verdade é que me considero, modéstia à parte, o leitor ideal. Quando abro um livro, a última coisa que desejo é irritar-me com o autor. Concedo-lhe liberdade total para dizer o que quiser, criar do absurdo ao ridículo, romper todas as barreiras morais e mais quanto achar que deva para expressar o que tenciona. O que não tenho — e orgulho-me disso — é uma cartilha para exigi-la de quem leio. Escolho, conscientemente, leituras que aparentam contrárias ao que aparento pensar. E mesmo assim, mesmo com essa abertura quase ilimitada, acabo sempre encontrando quem me atice os nervos…

Não há página vã em Tolstói

Leio páginas e páginas de Tolstói e a mente parece questionar-me: “Por que tanto tempo despendido em outras bandas?”. A sensação é de que, em Tolstói, não há página vã, estamos sempre ante personagens que confrontam o essencial. Confrontam, isto é, raciocinam, enxergam e julgam as circunstâncias que os rodeiam; por vezes, deixam-se agir irrefletidamente, então amargam as consequências psicológicas, remoendo o passado. Passado! este, sempre, objeto de tortura, fonte inesgotável de lamentos… Mas o que mais parece impressionar nestas construções tão vivas, tão cheias de verve e sinceridade, é a inserção minuciosa de detalhes que as dotam de realismo, tornam-nas mais que convincentes. E pensar na mente que pariu esses milhares de páginas douradas… é inclinar o tronco e tirar o chapéu.

Um problema é problema desde que a mente assim o classifique

De Lao-tsé, em tradução inglesa:

Stop thinking, and end your problems.

Que verdade! Um problema é problema desde que a mente assim o classifique — condições e fatos são frios; qualificação é obra mental. Tido o problema, as consequências: ansiedade, preocupação, conflito, perturbação psicológica. Anular a mente, bridar pensamentos… se há paz possível ao homem, eis o caminho. Contudo…

Os detalhes pavorosos de um ritual de magia negra

Conhecendo os detalhes pavorosos de um ritual de magia negra, nota-se sem espaço para dúvida que o operador materializa-lhe, de antemão, a vontade maligna e repugnante. Disso a dizer que a magia funciona é pouco. Toda a dificuldade da preparação, o esforço envolvido, a necessidade de reafirmação contínua do voto, a focalização e estimulação mental em prol do objetivo malévolo… tudo isso antes da consumação do ritual terrível, do ato voluntário e sem retorno possível. A consciência daquele que opera semelhante monstruosidade morre para sempre; psicologicamente, é um caminho sem volta, um caminho que só pode avançar para mais e mais trevas, senão para a loucura ou suicídio. Chega a ser inacreditável constatar quão fundo a natureza humana é capaz de descer, quão ilimitada é-lhe a potencialidade do mal… o impulso é de cuspir-lhe na face e praguejar infinitamente contra essa espécie maldita.