O determinismo é medíocre e covarde

O determinismo é, antes de tudo, medíocre e covarde. Ainda que seja, em alguma medida, ironizada severamente pelo fado, uma compreensão da realidade que ceda espaço ao livre-arbítrio é infinitamente superior a resumir o ser humano num fantoche. Se o mérito acaba inexoravelmente em derrota e, muitas e muitas vezes, vacila ou é tombado em seu próprio campo de ação, não quer dizer que não entregue dignidade ao ser que se escusa de justificativas que não fazem senão evidenciar a própria impotência. Compreender o mundo como imune à ação humana e a ação humana como um fenômeno incontrolável é resumir o ser humano num cachorro — o que pode até ser verdade, desde que não tomada como universal.

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Um arco-íris dourado

Estamos quase! Tudo o que nos foi legado encontra-se na iminência de uma venturosa elevação! Dezenas de séculos, milhões de anos de evolução da espécie erigiram e amparam nosso momento. Falta pouco! Um pouquinho de cada um e brotará do asfalto um arco-íris dourado a pairar sobre todo o território mundial!

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É com ele que eu vou!…

Não há ironia assaz potente para expressar toda a alegria destas linhas, agora, envoltas em animadíssimos jingles. A verdade é que as palavras, estimuladas, já estão a dançar. Oh, linguagem, como comoves quando bem talhada! Futuro, trabalho, melhor, de verdade, de verdade, como a gente, diferente, diferente… A esperança é a mais nobre entre todas as nobilíssimas dádivas concedidas ao nobre espírito humano. A face, quando sorri em retorno à promessa, exibe a virtude da alma apta a confiar na irmã de bênção. E, juntas, em harmonia, são ambas predestinadas a edificar o Bem-Aventurado Empíreo Municipal!

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Os poderes infernais, de Carlos Drummond de Andrade

Outro belo soneto de Drummond:

O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.

Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.

Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe

o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.

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