O termo “religiões” é dos mais enganosos, e joga num ridículo indescritível aqueles fanáticos, conhecedores de apenas uma delas, que se põem a declamar opiniões. Um pouco de leitura é suficiente para demonstrar que as chamadas religiões possuem um vocabulário próprio e falam de coisas diferentes. Se por vezes as traduções podem passar uma outra imagem, tradução nenhuma será capaz de trair o conjunto, ostensivamente original. Daí que, quase sempre, para enxergar um conflito direto entre elas é preciso fabricar um espantalho, algo que só pode revelar a ignorância de seu fabricante. Mas não adianta: é preciso um esforço tremendo para impedir a vaidade de se manifestar.
A crítica é por vezes demasiado óbvia
A crítica é por vezes demasiado óbvia, e quando se limita a salientar aquilo que há de seguro, pode passar uma falsa impressão. O exemplo é aquele autor pouco conhecido, preterido por outras figuras de seu tempo, mas em cujas páginas percebe-se claramente o esforço original. Para passar uma imagem justa de sua obra, a crítica tem de destacar esta rara qualidade, que valoriza o todo e é sobressalente perante os defeitos. Nestes casos, se é para dizer algumas poucas palavras, é muito melhor que se limitem àquilo que não é comum.
É uma pena haver no Brasil um número…
É uma pena haver no Brasil um número tão expressivo de poetas talentosos mortos prematuramente. Alguns deles, com mais uma ou duas décadas de vida, certamente produziriam obras valiosíssimas. É o caso de Raul de Leoni. O que salta aos olhos em sua Luz mediterrânea é o esforço sincero por dar expressão àquilo que intimamente mais o comovia, a despeito da moda vigente: uma demonstração da consciência da própria individualidade e de qual caminho deveria seguir com maior proveito. Por isso, sua poesia foi original. Essa noção tão clara da própria posição, que sabe escolher os temas mais adequados e busca desenvolvê-los na forma que julgue justa, ignorando quanto estejam fazendo ou quanto certamente dirão, é uma qualidade difícil de encontrar, o mais das vezes só alcançada após sucessivos erros, e pouquíssimas vezes presente já nas primeiras criações. Sem dúvida, deste poeta sairia uma obra excepcional.
Nunca errará o escritor que se concentrar…
Nunca errará o escritor que se concentrar naqueles temas propriamente seus, ainda que deixe de lado outros tantos que poderiam tornar-lhe a obra mais abrangente. Por essa abrangência, às vezes paga-se o preço da dispersão. E como são notórios os trechos em que o escritor se manifesta com toda a intensidade de que é capaz, faz bem que neles se concentre, que em torno deles construa o que tiver de construir. Trabalhando desta maneira, mesmo os excessos passarão diminuídos pela sinceridade que naturalmente abundará numa obra que, conscientemente, alvejou o essencial.