Realmente, a vida seria impossível sem…

Realmente, a vida seria impossível sem a certeza da impermanência, que se dá cotidianamente sob a expectativa de que algo pode mudar. Possível a mudança, é também possível a ação. E ainda que por vezes a consciência falhe, logo a realidade trata de restabelecê-la, desfazendo quanto parecia estável e incitando o movimento uma vez mais. Ao homem, por quanto tempo viva, é sempre concedida a condição de alterar.

O melhor que faz o aluno para fixar o conteúdo…

O melhor que faz o aluno para fixar o conteúdo recém-aprendido é expô-lo, ainda que parcial ou imperfeitamente. Tal o sabem professores e alunos e, por isso, é prática usual. Contudo, também fica evidente que ao fazê-lo, se não o encarando como mero exercício, arrisca-se arbitrar sobre o conhecimento ainda não consolidado, e naturalmente se erra, e se erra muito. O curioso é parecer este um processo necessário, e frequentemente nos depararmos com o conhecedor que, anos antes, vagueou por bem longe de onde o conhecimento o conduziu. Dominar um assunto talvez não seja mais que reunir intimamente o arsenal dos erros que impedem a sua compreensão.

Uma coisa bonita de se ver é a serenidade…

Uma coisa bonita de se ver é a serenidade que brota de uma rotina adequada, e por isso mesmo estimulante. Muito frequentemente, a impaciência não é mais que sintoma de um claro desajuste. Corrigido, ela cessa, e leva com ela os outros colaterais que fazem o homem acreditar que vive a desperdiçar a própria vida. Mas não somente isso: surgem, como por mágica, qualidades antes impensáveis, dando-se a manifestação justa da personalidade e resultando na serenidade que concretiza uma real transformação.

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista…

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista moderno decorre da consciência de que, em muitos aspectos, o cotidiano atual seria incompreensível para homens do passado. Quando lemos, hoje, histórias de quinhentos, oitocentos anos, compreendemos sem muita dificuldade os afazeres, os costumes, as sociedades de então, ainda que os contrastes sejam evidentes. Plantar, colher, celebrar, navegar, pescar, fermentar, tecer, cavalgar, rezar, construir, casar, pintar, jogar… tudo isso é muito antigo e muito atual, possibilitando cenas inúmeras e livros inteiros cujo sentido jamais se perderá. Já afazeres modernos, como “navegar na internet” ou simplesmente operar um computador, algo em que se faz uma carreira, gasta-se uma vida, certamente não possuem a mesma qualidade atemporal. O romancista, mirando-os, isto é, mirando parte considerável do material de seu tempo, tem de se decidir o quanto os aproveita, e embora saiba que ocultá-los talvez seja falsificar-se, experimenta a impressão de que, se incompreensível aos grandes homens de outros tempos, sua história provavelmente não terá valor.