Às vezes é difícil vencer a sensação de vertigem e esgotamento que brota nestes momentos em que parece se mostrar a vastidão inesgotável do campo da literatura e das ciências sociais. Uma única leitura interessante coloca cinco, dez outras na lista de espera, as quais se multiplicam por outras vinte ou trinta, deixando o pobre estudante de joelhos diante da impossibilidade de lê-las todas de uma vez ou, pior, diante da justa expectativa de uma nova escalada exponencial. Mas, então, impelido pela necessidade, tem de voltar àqueles velhos princípios: o primeiro, aquele que ensina valorizar o momento; o segundo, aquele que recomenda começar pelo mais importante. Afinal, experimenta o alívio de que terá, pelo resto da vida, companhia de valor.
A diferença entre o intelectual jovem…
A diferença entre o intelectual jovem e o intelectual maduro é esta: o último tem coragem para assumir a responsabilidade pelo que diz. Parece pouco, mas não é. O jovem é, frequentemente, lógico e rebelde, é capaz de críticas ferozes e perspicazes; mas, o mais das vezes, não tem coragem de fazê-las expondo o seu rosto, nem atrelando a elas seu nome completo. Em suma: não tem coragem de assumi-las, muito menos de sofrer as consequências de sua provocação. O tempo passa, porém. E a temperança que costuma conferir pode enganar sobre este quesito: o intelectual maduro, embora pareça mais comedido, não tem medo de ir até o final.
A história brasileira seria talvez…
A história brasileira seria talvez a mais interessante do planeta se nascessem mais dois ou três Gilbertos Freyres, que concedessem ao público leitor duzentos ou trezentos anos analisados sob o prisma variadíssimo do gênio original. Não seria preciso cataclismos, proezas heroicas, êxitos milagrosos para torná-la intrigante: bastaria que, pelas vestes, pelos costumes, pelas preferências e convicções, ficassem evidentes a ascensão e a degradação do homem comum. “De que você brincava quando era criança?”, “O que fazia aos finais de semana?”, “O que lia?”, “O que pensava sobre isso ou aquilo?”… Este tipo de pergunta diz tudo, ou quase tudo, sobre o estado de uma civilização.
Há algo estranho na maneira como as ideias…
Há algo estranho na maneira como as ideias se manifestam na mente. Às vezes, é divertido brincar de defrontar o problema da tela branca, do ponteiro a piscar e do texto ainda por escrever. Então, percebe-se o seguinte: a ideia não brota quando a mente se movimenta, quando imagina frases e temas, e reflete sobre aquilo que irá escrever. Se intensifica o pensamento, chega a esgotar-se, mas a ideia não vem. Contudo, se se permite, ou se lhe sucede um lapso, às vezes no ato de acender um cigarro ou de passar um café, que interrompe o pensamento e estabelece um vazio, uma inércia de um segundo, é neste segundo que a ideia brota manifesta, restando ao escritor a tarefa de modelá-la e escrever.