É preciso sobretudo banir a possibilidade…

É preciso sobretudo banir a possibilidade do desespero, e blindar-se de antemão contra essa armadilha indesejável e potencialmente fatal. E então aprender a lidar com a culpa, com a morte, com o desânimo, com o sofrimento, buscando sempre tirar deles algo de bom. O infortúnio, já se disse, costuma vir acompanhado; mas também abre uma porta, e será sempre assim.

Será fatalmente um estranho aquele…

Será fatalmente um estranho aquele que não possuir o desejo de concordância, nem mover-se para provar o erro nos outros e a correção em si mesmo. Um sujeito assim nunca se adaptará a nenhum meio, embora possa participar superficialmente de qualquer um. A identificação, porém, é-lhe impossível, e ninguém será capaz de ver nele uma natureza afim. Tais impulsos são componentes das relações humanas normais: unem e separam, mas afinal classificam; não tê-los é como blindar-se de qualquer conexão.

A velhice parece recomendar a serenidade

A velhice parece recomendar a serenidade tal como a juventude recomenda a paixão. Contudo, o jovem que contraria o natural da juventude parece-nos superior a ela, enquanto o idoso, se faz o mesmo, parece-nos desajustado à idade que tem. É estranho porque os casos abundam em que o conflito como que se entranha na natureza do indivíduo, de forma que abandoná-lo, para ele, seria morrer. Então acompanhamos aqueles que, de cabeça branca, se conservam aguerridos, apaixonados, sempre envolvidos em alguma contenda. Seguramente, não serão homens a julgá-los; mas parece a velhice ser mais autêntica quando cultiva e irradia paz.

O fracasso da vida de Tolstói

Todas as contradições, a desumanização e o próprio fracasso da vida de Tolstói relatados por Paul Johnson são muito tristes. Porém, tomar-lhe o relato como um resumo da vida seria imprudente: a biografia carece do testemunho literário. E, sem dúvida, a imagem que fazemos de Tolstói se transforma quando confrontamos os dois. Fica, de um lado, a aparência exterior, o ato, toda sorte de fraquezas e defeitos humanos que tendem a vir à tona quando se exige do homem a ação. Tudo isso é de se lamentar. Porém, quando lemos algumas linhas de Tolstói, percebemos haver nele algo diferente. Não se trata da genialidade literária, mas da absoluta impossibilidade que uma compreensão tão profunda da natureza humana não tenha implicado a consciência das próprias contradições, da própria desumanização e do próprio fracasso. É impossível imaginar que o Tolstói de Paul Johnson não experimentasse uma atrocíssima guerra interior. E, notando-o, somente o diabo é incapaz de empatizar.