É só depois de muito tempo, e após presenciar…

É só depois de muito tempo, e após presenciar muitos rompimentos e muita frustração, que se percebe a verdade da lição: sem o idem velle, idem nolle, a amizade não prospera. E não o faz pelo bem, posto que, com o tempo, sem ele não fará senão estorvar. Quando menos se percebe, já se perdeu tempo, já se foram oportunidades, já se gastou energia e já se estagnou. Daí que não há fracasso mais previsível, quando o tempo não trata de alinhar ao velho princípio, e notá-lo é saber que há forças contra as quais não compensa lutar. Melhor, sem dúvida, é seguir os conselhos da inclinação natural, espontânea, que sem ter de gastar uma única palavra aponta a direção para a qual o espírito deve convergir.

O pudor linguístico e o pudor literário

O pudor linguístico e o pudor literário são coisas diferentes, embora, superficialmente, possam se confundir. Mas quando se analisa bem, percebe-se que há autores que possuem uma forte manifestação do primeiro, do segundo, de ambos ou de nenhum. E em cada caso específico, muito do autor se revela pelo havê-los ou não. Tomando a literatura como um todo que abrange bons e péssimos autores, o mais comum é que a falta de pudor literário seja evidência de falta de cultura; já quanto ao pudor linguístico, o mesmo não se pode dizer. O que se diz e o que se representa são coisas distintas, sendo a linguagem mero instrumento deste último, que pode ser empregado com maior ou menor intensidade, a depender da necessidade e da intenção. Linguisticamente, há impulsos que pedem expressões extremadas; do contrário, não se alcançará uma justa representação. Mas o íntimo de toda obra é anterior à linguagem, e é somente nele que se pode medir o grau de refinamento de um autor.

Se houvesse uma ciência das biografias…

Se houvesse uma ciência das biografias, mais interessante do que analisar os golpes de sorte, os imprevistos e demais determinações relevantes do destino, seria aprofundar o estudo destas conjunturas complexas muito frequentes, em que o mérito não fica de todo ausente, mas claramente não basta para justificar o sucesso alcançado, e então se aventa que este, ali, no tempo exato e na circunstância específica, “tinha de acontecer”. Outros, talvez com mais talento e maior mérito, não gozaram semelhante resultado, e então se pergunta o porquê. Tais conjunturas impressionam, e por vezes determinam uma vida inteira. Como explicá-las? A nível mundano, concretizam algo incrível, e não deixam outra impressão senão a de que o biografado nasceu para fazer o que fez.

É triste ver que não é raro encontrar…

É triste ver que não é raro encontrar naturezas como empedernidas, para as quais o tempo não faz senão intensificar o círculo de erros de que não conseguem se libertar. A convivência com tipos assim é demasiado penosa, especialmente após alguns anos, quando se tem certeza de que não haverá mudança e a situação se agravará. Chega o dia em que o desconforto se torna insuportável e, então, só resta abandoná-los ao destino. Mas o pior é que fazê-lo não resolve o problema, e deixa na consciência uma ferida dificílima de sanar…