Às vezes, nas biografias, não é dado…

Às vezes, nas biografias, não é dado o devido destaque, ou não prestamos suficiente atenção nas vezes em que o biografado é ajudado, estimulado ou impulsionado por alguém que a biografia acaba por ofuscar. Vem à mente aquele anônimo tio Cunha, cuja importância na formação do pequeno Fernando Pessoa não pode ser sequer estimada, mas certamente foi benéfica e fundamental. Pessoas assim, como anjos, costumam aparecer umas poucas vezes na vida; influem de forma determinante, mas com uma sutileza que costuma se perder no tempo, frequentemente não deixando registros senão aqueles que deveriam permanecer para sempre na consciência. Cabe ao beneficiado nunca esquecê-las: nem quando, porventura, se encontrar em altitudes superiores; nem quando descair e for assaltado pelo injustificado pensamento de que esta terra está privada do bem.

O behaviorismo teve o azar de ser desenvolvido…

O behaviorismo teve o azar de ser desenvolvido por mentes pouco filosóficas, as quais se valeram de bons experimentos, mas tiraram más conclusões. Ensinou um bocado, decerto, mas já é como um fóssil para a psicologia atual. É uma pena. Havia campo vastíssimo para comprovar, por vias intermináveis, a seguinte verdade: o homem se inclina ao humano; o boi ao bovino. Sempre.

Se um autor pensar um bocado…

Se um autor pensar um bocado, descobrirá que possui, sempre, algo a ensinar a alguém. E se, em vez de seguir a irresistível tendência de imitar o que outros fizeram, centrar-se em ensinar, na medida de suas possibilidades, mas com sinceridade e pureza de intenção, aquilo que sabe àquele que não o sabe, terá, seguramente, ao menos um bom leitor. Mas acontece que, fazendo isso, descobre que sabe mais do que supunha, aprende mais do que antes sabia e consegue, de uma só vez, evoluir e criar algo de valor.

O problema em se escrever uma “ode ao fútil”

O problema em se escrever uma “ode ao fútil”, como o fizeram alguns poetas, é que, a partir do momento em que o leitor se depara com um poema assim, prosseguir na leitura significa aceitar o papel de interessado nas futilidades do autor. A maioria, decerto, o aceita, e o aceita entusiasticamente, e o tal poema talvez encerre a genialidade de aproximar-se, pelas letras, de um programa de televisão. Mas ocorre o seguinte: ninguém se interessa por programas da década passada, porque todo fútil possui este atributo que o condena ao esquecimento — é, necessariamente, temporal.