Pär Lagerkvist é mesmo um grande escritor, que conseguiu transferir para as letras o essencial de sua experiência angustiante; e o fez de tal maneira que, já no contato inicial, o leitor se percebe diante de um espírito incomum. É engraçado: o sujeito que avança no pensamento sem permitir que ele descole da experiência, e que avança sentindo-o, tentando integrá-lo, não querendo valer-se dele senão para obter respostas para as questões que julga fundamentais, sempre acaba penetrando o terreno da religião. E aí que, de duas, uma: ou é do tipo afortunado que obtém respostas, ou é, como Lagerkvist, do tipo que não consegue obtê-las, nem se livrar das perguntas, e que logo se encontra dominado por uma invencível obsessão. Este último tipo parece produzir escritores mais fecundos; e não somente escritores: produz homens que, pelo esforço de uma vida inteira, acabam por justificá-la, justificando também a angústia interminável que correrá sempre de geração em geração.