The Sopranos, de David Chase

Perdi, já há algum tempo, o hábito das séries. Mas sei que se por algum motivo bater-me a nostalgia das horas despendidas frente à tela, mesmo submerso em um mar de opções recentes e aclamadas, optarei por rever — outra vez… — The Sopranos, de David Chase. E por quê? Porque essa série, dentre todas, exibe as construções psicológicas mais complexas e instigantes que já tive a oportunidade de assistir. Personagens inteligentes, ambíguos, agitados por pujantes conflitos internos e representados em atuações fantásticas. Nada mais cabe a mim esperar de uma série…

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Escrever para o cinema

Creio ter sido Faulkner que disse uma vez o quanto escrever para o cinema prejudica a criatividade de um autor. É claro, Faulkner é mais autoridade para falar sobre o assunto, mas não creio que o cinema apenas mine a criatividade de um escritor. Escrever para o cinema, em meu caso, foi de profunda importância. Para os que nunca leram um roteiro — e que não perdem muita coisa: — o texto cinematográfico, quando bem escrito, é de extrema objetividade: a cena descreve exata e somente o necessário para ser inteligível. Quase não há adjetivos, uma personagem jamais se apresenta com “olhar vagueando por devaneios cálidos”, e as janelas em hipótese alguma são “tristes e sombrias, varadas por uma fraca luz que desfalece meio à penumbra”. É verdade, é verdade: há menos arte num roteiro de cinema do que em Tolstói. Porém, escrever para o cinema obriga o escritor a perguntar-se: qual o objetivo desta cena? Qual a função deste objeto, personagem ou inflexão? É mesmo necessário este trecho? Qual, antes de tudo, o objetivo, a mensagem deste filme? A cena que estou escrevendo contribui, de alguma maneira, para o enredo do filme? possui alguma ligação direta com a mensagem principal? O filme pode ser resumido, sumariamente, nos três atos da tragédia grega? O clímax convence? está bem amparado? Há justificativa dramática e psicológica para as ações das personagens? Poderia continuar citando, mas basta. O que penso, pois, é que esse tipo de pergunta parece-me fundamental para qualquer texto artístico e, humildemente, creio ser necessário fazê-las de forma metódica. Faulkner talvez não diria o mesmo mas, particularmente, dou graças ao cinema por tê-las entranhadas em minhas veias.

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O espelho, de Andrei Tarkovski

Revejo O espelho, de Andrei Tarkovski, e impressiono-me como nunca o tivesse visto. O filme, para quem o não viu, trata-se de uma reprodução de memórias do próprio autor, organizadas de forma não cronológica e não linear. A sensação de quem assiste é ambígua: por um lado, percebe-se que há algo fundamental ainda a revelar-se; por outro, o filme causa algo próximo a um êxtase visual e sonoro, fazendo com que cenas aparentemente sem sentido e banais tomem uma dimensão monumental. Não me surpreende o mistério — que aliás é um elemento que se tornou clichê em produções cinematográficas, — mas sim a pungência do filme. Tarkovski consegue emocionar o espectador cena a cena, mesmo a trama não dispondo de linearidade nem cronologia definida, e mesmo que o espectador não esteja entendendo absolutamente nada. O que me leva às seguintes reflexões: 1) a imaginação dificilmente atinge o resultado de produções baseadas na experiência, e 2) talvez os russos estejam mesmo um passo à frente do resto do mundo quando o assunto é arte.

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