É realmente impressionante como os anos…

É realmente impressionante como os anos, que não parecem nada, que passam imperceptivelmente, desfiguram a realidade até um ponto em que não sobra um único resquício do que um dia foi. Tão próximos um século do outro, e por vezes díspares a ponto de não se reconhecerem. Será tomado de espanto aquele que fizer uma análise minuciosa dos costumes de épocas passadas, em medida idêntica à que resultaria se alguém do passado pudesse vislumbrar o futuro. Em ambos os casos, um misto de estranhamento, repulsa, incompreensão e assombro. Assombro porque, em teoria, a espécie humana sempre foi constituída de homens. Porém, para a sociologia, é possível descrever homens de diferentes tempos como espécies distintas.

Para ser normal…

Para ser normal, absolutamente normal, é preciso, em primeiro lugar, frequentar um psicólogo. Só ele é capaz de colocar uma alma perdida no caminho da normalidade. Em seguida, é preciso viver de forma a empregar, no mínimo, metade do tempo útil trabalhando. Diariamente, é necessário expor-se às radiações salutares de uma televisão. Os remédios para ansiedade, depressão e colesterol devem complementar uma dieta centrada em produtos industrializados. As injustiças sociais devem inspirar a mais profunda indignação e o Estado deve ser obedecido independentemente das circunstâncias. Ao lado do travesseiro, um livro de autoajuda. E a mente a repetir o mantra: “Eu sou capaz”.

O homem moderno trabalha

O homem moderno trabalha; quando não está trabalhando, está em seu momento “livre”, em seu momento de “lazer”, no momento em que distrai-se e pratica hobbies. Nisto se lhe resume a filosofia de vida. E é por isso que, hora ou outra, seu mundo desaba. A mediocridade da vida que leva escancara o vazio de todas as suas ações. É como se tivesse aceitado viver como uma máquina bifuncional; não há sentido na maneira como vive, há dois botões: no primeiro, liga-se o modo “trabalho”; no segundo, ativa-se o modo “tempo livre”. É ridículo pensar que este proceder chama-se atualmente “normalidade”, cujos desvios já produzem excêntricos e alienados. Ser normal, hoje, é vender ou matar o tempo de que se dispõe. “Qual é o seu hobby?” — e um homem de uma época longínqua se sentiria insultado.

O caráter utópico da possibilidade única de harmonia social

É curioso notar o caráter utópico da possibilidade única de harmonia social. Esta implicaria, basicamente, a liberdade individual e a proteção contra as tentativas de sua violação. E é impossível porque manifesta-se no mesmo indivíduo que carece de liberdade o impulso incontrolável de violação da liberdade alheia para a realização de seus anseios. Tal impulso, é claro, é minorado quando se aumenta a distância entre os indivíduos, livrando um da presença do outro — o que não é possível nas cidades modernas superpovoadas. Força é, pois, que se resolvam, ou que alguém os obrigue a se resolver. Mas surge um impasse: tolerar plenamente o outro é o anarquismo e o caos; o caminho oposto é a supressão das liberdades. Disto observa-se que o convívio necessariamente cria desequilíbrio, e só se alcança alguma estabilidade social proibindo, controlando, impedindo, o que acaba acarretando a natural reação daquele que tem a liberdade violada, que é o mesmo que necessita impor-se, invadindo a liberdade alheia, e que representa a justificativa inquestionável das proibições e controles. Sociologia é o fim!