A despeito de parecer hoje inexistente…

A despeito de parecer hoje inexistente após décadas de sistemática e veemente relativização, o senso comum permanece como a mais sólida baliza moral do homem ordinário. Não é a lei que o orienta, não é na lei que ele pensa quando age ou deixa de agir. Se não mata, se não rouba, é porque assim prescreve o senso comum, havendo ou não havendo lei. O efeito desta, aliás, graças ao Estado moderno, é torná-lo sempre mais ou menos infrator. Quer dizer: se não corresponde a lei ao senso comum, não é possível enxergá-la como justa, e seu efeito não pode jamais ser educativo, como teoricamente se pretende. E disso tudo, o mais curioso é que chegará o dia em que alguém terá de notá-lo, terá de notar a falência do direito moderno perante o antiquíssimo senso comum. E, então, caso se queira transcrevê-lo juridicamente, já não será possível — a menos que se admita novamente a religião.

O impressionante do hábito é acostumar…

O impressionante do hábito é acostumar a mente a tarefas difíceis, fazendo com que pareçam quase, quase fáceis; e, mesmo que não chegue a tanto, trivializa o fazê-las, algo por si só extraordinário. Psicologicamente, habituar-se a fazer algo é fazê-lo com menor esforço, como ligando um modo de execução automático. E só é possível notar o quão benéfico, o quão poderoso é o hábito ao rompê-lo e, em seguida, tentar fazer o que antes se fazia com naturalidade. Quase sempre, menor que o esforço necessário para retomá-lo é aquele necessário para desistir.

Frequentemente o que motiva a misantropia…

Frequentemente o que motiva a misantropia é não a total repulsa pelo que há de mau no homem, mas uma divergência de interesses. Dizendo desta forma, parece pouca coisa; mas há divergências que, por tão completas, fazem com que o contato seja sempre estorvo, sempre perda de tempo, quando não aborrecimento. E então torna-se penosa a busca por um ponto de contato sabidamente inexistente. Sem ele, não há relação humana possível, e se não pode havê-lo, buscá-lo resume-se, como diz a expressão popular, a dar murros em ponta de faca.

Tornou-se corriqueiro dizer da preguiça…

Tornou-se corriqueiro dizer da preguiça o principal vício do caráter brasileiro. Nada mais falso! Este posto pertence à maledicência, e a uma maledicência suprema e sui generis. No Brasil, tal vício não remonta como noutras bandas simplesmente à inveja. A maledicência, aqui, começa pelo hábito, pelo impulso incontrolável, inato e cotidiano de falar da vida alheia, algo desde logo detestável. Disso para maldizer, contudo, há uma distância que só pode ser preenchida por uma infâmia mais profunda: a inveja, sim, mas também a covardia, a necessidade de aceitação, a mesquinhez desmedida, a ausência de personalidade, como muitíssimo bem retratado por Orígenes Lessa. Talvez seja mais simples colocar a questão da seguinte maneira: o maldizente brasileiro não deseja as qualidades do objeto de seu maldizer; ele deseja, pelo contrário, que este as perca e desça ao seu nível miserável; maldiz, pois, não por um “querer valorizar-se”, mas para amesquinhá-lo, algo só possível num espírito que desceu ao mais baixo entre os círculos da mediocridade.