De vez em quando, surgem pessoas…

Diz Evanildo Bechara, em sua Moderna Gramática Portuguesa:

De vez em quando, surgem pessoas que querem ver expurgadas dos dicionários certas palavras depreciativas de povo ou localidade (como judiar, baianada e outros). É excesso de sentimento a que a História não se curva, nem o povo leva em conta, porque, no uso do termo, não entra nas minúcias históricas do pesquisador, nem procura, usando a palavra, fazer juízo específico a respeito do povo ou da localidade.

Que coisa! É este o tipo de comentário que, hoje, não espantaria se colocasse o quase centenário professor numa jaula, após arruinar-lhe por completo a reputação e aviltar-lhe publicamente a obra. Contudo, se algo é atestado pela história, é que ideologia ou censura de nenhuma espécie pode competir com uma língua viva, falada e moldada majoritariamente por aqueles que não dão a mínima para os frequentes delírios de cabeças vazias. É um embate, sem dúvida, divertido de se ver, cujo resultado é sempre o mesmo e nos dá uma justa dimensão da vitalidade e da independência de um idioma.

Se algo se atingiu pelo enfraquecimento…

Se algo se atingiu pelo enfraquecimento da religião no ocidente, foi o enfraquecimento dos vínculos sociais no nível mais básico. O próximo bíblico tornou-se, mais do que nunca, um estranho, e o sentimento que permeava ou deveria permear uma comunidade, seja ele qual fosse, transformou-se numa generalizada e absoluta desconfiança. Rompeu-se um elo comum sem substituí-lo, e o resultado só poderia ser a segregação. Disso, não se pode concluir senão que o mundo tornou-se um lugar ainda mais hostil.

O que há de mais difícil e perigoso…

O que há de mais difícil e perigoso para nós, modernos, no estudo da história, é vencer a tendência de ver-nos a malícia refletida nas ações daqueles que viviam num tempo ainda não corrompido pelo marketing. Somos inclinados a encontrar, sempre, a mentira e o interesse por trás de cada ato e de cada palavra, quando, em verdade, para nem entrar na questão moral, estas não premiavam com a generosidade e segurança que ora premiam. À mente moderna é estranha a pureza de intenções e o agir sem nada esperar em troca; por isso, para bem compreender algumas vidas pregressas, é preciso, antes de tudo, submeter-se a uma evolução.

A virtude é simples e o vício complexo

Certamente já notaram que a virtude é simples e o vício complexo. A virtude não dissimula, e apresenta-se quase sempre banal, chocha, sem graça, o que frequentemente engana sobre sua natureza. Já o vício, é difícil que o enxerguemos, de pronto, como vício: comparando-o com a virtude, nele temos uma apresentação mais charmosa, mais instigante. A virtude é simples porque, para justificá-la, jamais se necessita mais que uma meia dúzia de palavras ou do imediato senso comum; já o vício vale-se de possibilidades mais sofisticadas do argumento, e sua dialética convence justamente pela sofisticação. A reflexão sobre tais qualidades parece sugerir o dualismo entre forma e conteúdo — e as conclusões que tiramos evidenciam, a contragosto, aquela que valorizamos mais.