Em certa medida, é proveitoso ao moralista capacitar-se a identificar a falsidade de longe, de forma que uma inflexão ou um olhar sejam suficientes reveladores de um caráter. Pragmaticamente, esta capacidade lhe será útil por toda a vida. Há, porém, um efeito colateral inevitável: percebendo-lhe a quase onipresença, tem de ou tolerá-la, ou afastar-se. Se aprendeu a detestá-la, se dela tomou uma repulsão invencível, descairá naquela rara prática hoje taxada de transtorno de personalidade, e ainda que, pelo motivo que seja, acabe cedendo à tortura que se lhe converterá o contato com o mundo, é somente naquela que encontrará a sua paz.
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Iriam para a cadeia
Impressiona notar a facilidade com que escritores dos últimos dois séculos iriam para a cadeia, caso publicassem hoje o que publicaram há poucas décadas atrás. Seriam ferozmente perseguidos, ferozmente censurados e, a menos que salvos por uma raríssima confluência de fatores, ficariam impedidos de escrever e publicar. Mortos, porém, salvo algumas exceções, permanecem tolerados, se não ignorados. Isso evidencia tanto o caráter histérico e autoritário deste século, como tornou-se, mais do que nunca, preferível o anonimato.
A guerra da informação
O que torna a guerra da informação ainda mais abominável que aquela travada em campos de batalha é a ausência de qualquer código de guerra. Consequentemente, dá-se o vale-tudo. O que espanta notar é o número daqueles que ainda não perceberam haver, de fato, uma guerra em curso neste campo. Tal se justifica em grande parte por nenhum dos que ferozmente combatem haver publicado, como pede o protocolo, uma declaração de guerra. Então que aqueles que inocentemente se lhes entravam o caminho são acometidos por uma violência total que não tem o menor escrúpulo para destruir e não admite anistia. Esmagar o adversário, e fazê-lo por quaisquer meios que estejam à disposição, de preferência sorrateiramente, à socapa, para que a agressão não seja identificada ou, no mínimo, seja impossível identificar o agressor. É uma guerra que, em suma, adicionou infâmia à violência pura.
O Eclesiastes é eterno
O Eclesiastes é eterno por ter constatado não haver novos vícios, nem novas esperanças, que o que se fez será novamente feito, e nunca haverá algo que já não tenha sido: em suma, as circunstâncias são diferentes, mas o homem é sempre o mesmo, e cai sempre nas fraquezas do passado. É ilusória a impressão que se tem de mudança com o tempo, posto que esta se limita a aspectos exteriores de uma realidade permanente. O homem é sempre o homem, e dele não se pode esperar senão que seja aquilo que é.