O século XX não parece ter sido suficiente…

O século XX não parece ter sido suficiente para demonstrar o risco da politização da filosofia, nem os desastres decorrentes da interpretação do “ato” como ato político, ou da “responsabilidade” como princípio que pleiteia o indivíduo como agente coletivo. Persiste o esforço para desvirtuar o pensamento e empregá-lo como pretexto e recurso nesta fábrica moderna de ativismo, a despeito de comprovadamente só produzir destruição. É lamentável, mas não parece ser com menos ativismo que se poderá combater o ativismo atual.

A inteligência principia com a capacidade…

Se, como está dito, a inteligência principia com a capacidade de maravilhar-se, decorre também que quanto mais se dissemina a noção de normalidade, mais difícil é para que a inteligência se manifeste. Quer dizer: a começar pelo próprio universo, passando pela natureza, pela sociedade até culminar nos detalhes do cotidiano, mirar tudo isso e tê-los como naturais, corriqueiros, em vez de espantar-se da sucessão extraordinária de fatores necessários para gerá-los, é mesmo coibir a manifestação do intelecto.

Sob nenhum aspecto a sede de domínio…

Sob nenhum aspecto a sede de domínio pode ser considerada virtuosa, embora seja característica ubíqua na história. Todas as razões imagináveis estão aí muito bem documentadas para condená-la, mas ainda assim o presente século a observa expandindo-se por meios cada vez mais poderosos, sem que se lhe contraponha ao menos o consenso de ser urgente freá-la; freá-la, expô-la e subjugá-la. Experimentar consequências tão óbvias e facilmente perceptíveis como as que se desenham é algo que não se permitem nem os animais.

O ateísmo conduziu o homem moderno a uma desorientação…

O ateísmo conduziu o homem moderno a uma desorientação tão extrema que resgatar as noções mais básicas de sua condição humana é obra que já se não completa em umas poucas gerações. O estado é calamitoso a ponto de que nem a literatura pode prestar-se a uma retratação realista e integral da sociedade hodierna, sob pena de ser desabridamente rejeitada pelas gerações futuras por ter extrapolado o absurdo mesmo se consideradas as possibilidades ficcionais. Esta é uma situação talvez inédita, em que é preciso ignorar o grosso da realidade para se fazer literatura duradoura. Há coisas que não se dizem numa mesa, e há coisas que não se escrevem.