Uma dinâmica de relações toda particular é responsável por fazer, com frequência, grandes personalidades tornarem-se desastres sociais. Socialmente, o triunfo exige qualidades específicas, que nada têm que ver com o nível de desenvolvimento pessoal. Há regras veladas, algumas das quais não se percebe sem cinismo, e não observá-las pode ser fatal. Com um grupo, não se pode estabelecer relações íntimas, e a sinceridade tem o seu valor relativizado. Deve-se agir sempre norteando-se por aquilo que convém, algo que, para alguns tipos, é simplesmente antinatural. Assim, muito do que às vezes choca nalgumas biografias não deveria causar grande impressão.
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Os tempos de miséria cultural são os mais propícios…
Os tempos de miséria cultural são os mais propícios para imergir nas grandes épocas, nas grandes obras e nas grandes realizações. Isso porque tudo nelas estimula um interesse acentuado pelo contraste, não deixando dúvidas sobre onde mais convém direcionar a atenção. Em verdade, mesmo nos tempos mais prolíficos, é pequena a parcela do que subsiste, e portanto grande a parcela do que distrai. Há, é claro, um sentimento especial proveniente da novidade; mas, talvez, esse sentimento desvie a atenção de onde com muito mais proveito ela se poderia concentrar.
O livro mais importante ainda a ser escrito…
O livro mais importante ainda a ser escrito por um novo e necessário Gilberto Freyre descreverá o que se passou no Rio de Janeiro nos últimos cem anos. Tal obra, se levada a cabo com seriedade, será a mais significativa do século. É uma catástrofe humana talvez sem precedentes que separa o Rio de Janeiro de Machado de Assis do Rio de Janeiro dos anos 2000 e, ainda que se mostre escandalosamente, é difícil traçar a sucessão de fatos que a possibilitou. Para isso, seria preciso reunir documentos, e penetrar na história com uma consciência e argúcia incomuns, capazes de identificar as raízes psicológicas de um fenômeno cristalizado fisicamente. Alguém terá de fazê-lo. De uma destruição como essa, algo de muito importante se deve aprender. Possivelmente, o destino brasileiro depende do sucesso de tal realização.
Quando nos deparamos com aquele que se gaba…
Quando nos deparamos com aquele que se gaba de algo que deveria envergonhá-lo, vemos o quão facilmente a esperteza se converte em vício. A ter semelhante qualidade, é melhor ser sempre enganado! Sem dúvida, não há constrangimento moral em ser vítima, nem em dar crédito àquele que não o merece. Se se perde algo, este algo vai-se sem deixar marcas na consciência, e o tempo jamais cobra o preço do remorso. Aquele que ganha, porém, perceberá que o que ganhou era pouco, e será mais feliz na medida em que a vileza que nutre não dê espaço para objeções — a felicidade plena, como se vê, só sendo possível a um animal.