Se houvesse uma ciência das biografias…

Se houvesse uma ciência das biografias, mais interessante do que analisar os golpes de sorte, os imprevistos e demais determinações relevantes do destino, seria aprofundar o estudo destas conjunturas complexas muito frequentes, em que o mérito não fica de todo ausente, mas claramente não basta para justificar o sucesso alcançado, e então se aventa que este, ali, no tempo exato e na circunstância específica, “tinha de acontecer”. Outros, talvez com mais talento e maior mérito, não gozaram semelhante resultado, e então se pergunta o porquê. Tais conjunturas impressionam, e por vezes determinam uma vida inteira. Como explicá-las? A nível mundano, concretizam algo incrível, e não deixam outra impressão senão a de que o biografado nasceu para fazer o que fez.

É triste ver que não é raro encontrar…

É triste ver que não é raro encontrar naturezas como empedernidas, para as quais o tempo não faz senão intensificar o círculo de erros de que não conseguem se libertar. A convivência com tipos assim é demasiado penosa, especialmente após alguns anos, quando se tem certeza de que não haverá mudança e a situação se agravará. Chega o dia em que o desconforto se torna insuportável e, então, só resta abandoná-los ao destino. Mas o pior é que fazê-lo não resolve o problema, e deixa na consciência uma ferida dificílima de sanar…

Num relato pessoal, observa-se que a sinceridade…

Num relato pessoal, observa-se que a sinceridade, quando autêntica, faz com que o interlocutor tolere praticamente tudo. Quando não condescendência, obtém ao menos boa vontade e compreensão. Assim, por exemplo, com o arrependimento sincero, causador de uma simpatia instantânea, muito distinta do sentimento que brota no interlocutor ao se deparar, em idêntico relato, com o adendo da justificação. Porque, no fundo, reage-se sempre ao sentimento motivante, e não é preciso submeter-se a um treino especializado para diferenciar de pronto a franqueza do amor-próprio.

A desconfiança com que o homem moderno…

A desconfiança com que o homem moderno toma conhecimento dos mais impressionantes relatos do passado é desconcertante. Sua mente bloqueia: constrói as condições inacreditáveis relatadas ao ponto de poder inteligi-las logicamente, mas o sentido como que lhe escapa, barrado por uma muralha intransponível, até que, finalmente, sente brotar o deboche, o desprezo, justificados pela alegação tão mágica como infundada da ausência de veracidade do relato. Mas esta não serve senão para livrá-lo do problema de refutar ou ter de admitir que aquilo simplesmente aconteceu. Vencido o desconforto, é hora de creditar emocionadamente algum contemporâneo imbecil.