Desejo: câncer da psique humana

É possível encontrar justificativas racionais para negar as soluções propostas pelos estoicos, pelos budistas, por Schopenhauer e tantos outros. Mas há uma verdade universal, presente também na filosofia cristã, referente ao desejo: é ele a praga, o câncer da psique humana, a fonte interminável de frustrações. E se, após cuidadosa análise psicológica, decidimos arrancá-lo pela raiz, desarraigando cada uma de nossas esperanças a enxadadas, livramo-nos de uma carga imensa, maligna e prejudicial. O problema é que o ser humano vive de sonhos, suporta a realidade na esperança de um futuro melhor. Exterminá-la, pois, é fazer com que a vida perca o brilho, é dar linha à indiferença, é negar a própria natureza, é automutilação. Pois bem: parece ser esse o caminho da paz.

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O desejo de concordância

Poucos instintos são tão perniciosos às relações sociais e, especialmente, à personalidade do artista como o desejo de concordância. Em primeiro lugar, por ser esta uma manifestação da vaidade. Em segundo, pelas naturais implicações: discussões inúteis, antipatias gratuitas e fortalecimento do apego às próprias ideias. Tudo isso é veneno para alguém que deseja cultivar relações amigáveis e, pior, dar origem a uma obra artística. Conviver com o dissidente não é somente obrigatório, como o mundo é melhor por duas pessoas não pensarem igual. E quanto ao artista: que é que ele tem a ver com a opinião dos outros ou com a própria opinião? Desejar a concordância o tornará um egocêntrico, de antolhos, inclinado a usar da arte para adornar as próprias convicções. Como artista, inevitavelmente falhará, posto o desejo de concordância ser mancha que, em contato com a arte, impregna e não sai.

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A resistência dos burocratas

Admira-me a resistência dos burocratas. No mundo sobejam burocratas. Dez, quinze, trinta anos executando, exatamente, as mesmas funções, cumprindo os mesmos processos, satisfeitos e orgulhosos da própria experiência. O semblante grave ao trabalhar, as palavras que lhes saem transmitindo segurança, perícia, precisão. Versados em relatórios, formulários, requisições formais. Mestres em procedimentos, especificações, certificados, regulamentações, atas… Admira-me a resistência dos burocratas, pois me não imagino em semelhante universo senão em desespero, frustração extrema, desejoso da morte. Trinta anos preenchendo formulários? Por favor, por favor, dê-me da mesma cicuta de Sócrates…

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Luiz Felipe Pondé e o problema genômico

No ensaio Da ciência e do medo, disposto em seu Do pensamento no deserto, Luiz Felipe Pondé faz uma reflexão interessantíssima a respeito do que podemos chamar de “problema genômico”.

Diz ele que certa vez, “andando pelo jardim do campus de uma das maiores e mais ricas universidades do chamado “primeiro mundo””, conversou sobre genômica e os riscos da engenharia genética com um grupo de técnicos em genética e biologia molecular. Deu-se o seguinte:

Uma das técnicas afirmou que não entendia a parafernália que a filosofia e a ética inventavam sobre a ciência em geral, mais especificamente criticava ela o blablablá sobre os possíveis desdobramentos sociais da atividade concreta e diária do laboratório genômico.

Então Pondé prossegue no ensaio, como respondesse à estimada proletária da ciência, esmiuçando todos os impactos que uma indústria genômica robusta traria em termos éticos, sociais e morais. É um cenário assustador.

Estamos falando de engenharia genética, inseminação artificial, gestação mediante úteros artificiais, — quem sabe? — incubadoras e tudo o que não se pode imaginar da evolução desta marcha aplicado em larga escala.

Pondé mostra-nos como o processo é inevitável e atacará o ser humano em sua dimensão mais íntima, destruindo interiormente importantes fulcros formadores de sentido, tudo impulsionado por um irrefreável desejo de emancipação. Com a moral sepultada pelos ganhos da técnica, restará finalmente o vácuo, exposto e inconsolável.

Mas que fazer? Como evitar o desastre? Não há que fazer. A ciência servirá de amparo ao processo, calcando-se em suas numerosas maravilhas.

Eis como Pondé engenhosamente presume o avanço da indústria genômica:

A tendência, como no caso de nossa agente social genômica, será a mediação burocrática operada pelas instituições competentes. No plano psicopragmático e sociopragmático, o que estará em jogo é a continuidade do processo emancipador — e aqui deveríamos levar em conta de modo mais sério a pragmática publicitária: “dê a seu filho o que há de melhor em você!”, ou “você não está se preocupando com o futuro de sua família?” “Previdência é a palavra-chave”. Uma tendência à reorganização social em base bionômica é irreversível. (…) Uma ampla frente de normalização será posta em prática: normalização securitária (inclusão dos bens genômicos nas apólices de seguro de saúde), normalização jurídica (definição de direitos genômicos), normalização pedagógica (definição da meta pedagógica como produção de indivíduos horizontalmente psico-bio-sociofelizes), normalização psicológica (definição da personalidade integrada como o direito a biofelicidade sem culpa), normalização social (combate a privatização dos bens genômicos), normalização política (campanha contra os preconceitos biofundamentalistas — o dogmatismo naturalista de raiz platônica a serviço do medo e da culpa — e contra o genismo, entendido como discriminação com base no menor capital genômico dos indivíduos excluídos da prática preventiva).

Sobra-nos, como sempre, a resignação e o sorriso cínico a estampar na face…

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