Hermann Hesse é um escritor-modelo

Hermann Hesse é um escritor-modelo. E pena que seja um exemplo tão raro, cujas páginas jamais fazem gastar o tempo do leitor. Ao lê-lo, experimenta-se a sensação de que o assunto abordado é sempre importante, a motivação artística é sempre verdadeira; e mesmo naqueles momentos em que o autor se permite voar para áreas mais nebulosas e incertas, como o faz em Demian, percebe-se que o intuito não é outro senão expressar artisticamente experiências reais. Por vezes, também vai por temas que não são os seus prediletos, mas são temas necessários, e que conferem à sua obra aquela importante abrangência que demonstra o autor não ter sido cego para o panorama geral da vida. Lê-lo é sempre uma grande satisfação!

Traduzi, ao inglês, dezenas de contos…

Traduzi, ao inglês, dezenas de contos neste último ano. E, ao contrário do que imaginava, diverti-me no demorado trabalho, ainda que me deparando o tempo inteiro com a insuficiência da tradução. Curioso foi rir-me durante o processo, algo que contrasta fortemente com meu estado de humor ao parir aqueles textos. Lembro-me bem… Após imergir-me na criação, o sentimento que predominava era outro. Há algo indescritível que se experimenta ao parir uma obra, enquanto se enfrenta as dificuldades do trabalho. Agora, tudo aquilo passou. Posso recordá-lo e revivê-lo com um distanciamento sereno, e rir-me do resultado de tão intensa aflição.

A facilidade com que um autor aborda…

A facilidade com que um autor aborda os seus temas preferidos esconde o quão perigoso pode ser imitá-lo. Lendo-o, parece tudo muito simples. Mas é simples porque a abordagem nasce de uma inclinação autêntica, e esta não é imitável. Para descobri-lo, porém, às vezes é preciso experimentar. E disso não escapam nem os melhores. Um belo exemplo são as Americanas de Machado de Assis. Certamente, a um amigo que pudesse ver-lhe interiormente, enxergar-lhe as obras futuras e o potencial criador, bastariam meia dúzia de versos para que viesse a recomendação jocosa: “Ora, meu bom Joaquim! Largue essa coisa de Anhangá e tacape! Você nem sabe o que é isso”. E, decerto, não haveria melhor conselho: o autor daqueles versos não era Machado de Assis. O duro é que, na prática, só é possível dizê-lo porque Machado, sozinho, percorreu a trilha das falhas para se descobrir e se nos revelar.

Tudo o que envolve a criação de uma obra literária…

Tudo o que envolve a criação de uma obra literária, tal como aquilo que diz respeito à evolução na arte da escrita, é irrelevante se não fundado no compromisso da dedicação regular. Indispensável, só esta parece ser. E só esta parece garantir, por si só, tanto a obra como a evolução, ainda que não se planeje muito, ainda que não se estude muito. A prática revela o verdadeiro de qualquer teoria e, sem ela, nunca se alcança a real assimilação. Assim, a despeito de todas as diferenças e inclinações particulares, neste ponto identificam-se os grandes mestres da literatura universal.