A literatura, impossibilitada como se tornou…

A literatura, impossibilitada como se tornou de ser profissão, só pode hoje gerar uns tipos inadaptados e anormais. Porque, afinal, praticá-la é não menos que trabalhar sem expectativa de retorno, algo que ninguém conscientemente faz. Assim, o escritor como que destaca uma parte de seu tempo da “vida normal”, e quanto maior essa parte, quanto mais for autenticamente escritor, mais se afastará da norma, mais se concretizará anormal. Não há solução. E se é quase incontornável a tendência de que fracasse em levar uma vida comum, ao menos tornou-se mais fácil verificar a sinceridade de sua vocação.

O ato que une escritores e os diferencia…

O ato que une escritores e os diferencia das pessoas comuns é sentar-se para escrever. Sentar-se, isolando a mente, envolvendo-a de um silêncio que só consente com a manifestação da voz interior. E, então, concretizá-la no papel. Este ato, simultaneamente criativo e organizador, se para alguns serve de terapia, para todos serve de norte, e uma vez que a ele o cérebro se acostume, abster-se-lhe é quase sempre cair em desorientação.

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista…

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista moderno decorre da consciência de que, em muitos aspectos, o cotidiano atual seria incompreensível para homens do passado. Quando lemos, hoje, histórias de quinhentos, oitocentos anos, compreendemos sem muita dificuldade os afazeres, os costumes, as sociedades de então, ainda que os contrastes sejam evidentes. Plantar, colher, celebrar, navegar, pescar, fermentar, tecer, cavalgar, rezar, construir, casar, pintar, jogar… tudo isso é muito antigo e muito atual, possibilitando cenas inúmeras e livros inteiros cujo sentido jamais se perderá. Já afazeres modernos, como “navegar na internet” ou simplesmente operar um computador, algo em que se faz uma carreira, gasta-se uma vida, certamente não possuem a mesma qualidade atemporal. O romancista, mirando-os, isto é, mirando parte considerável do material de seu tempo, tem de se decidir o quanto os aproveita, e embora saiba que ocultá-los talvez seja falsificar-se, experimenta a impressão de que, se incompreensível aos grandes homens de outros tempos, sua história provavelmente não terá valor.

Um dos piores erros que o escritor pode cometer…

Um dos piores erros que o escritor pode cometer é produzir com o intento de integrar-se em algum grupo. O resultado, quase sempre, é o sacrifício daquilo que de mais valioso poderia expressar. Assim que mentes talentosas, promissoras, pulsantes de autêntica motivação artística, largam mão de tudo isso por algo que, se bem resumido, não é senão o velho desejo de aceitação. O problema maior é que, pelo prêmio de ser aceito, julga a mente conveniente pagar o preço de agradar; porém, em arte, quando se tenta agradar, não se agrada, e certamente se corrompe.