Mais injustificável que a obsessão…

Mais injustificável que a obsessão com a originalidade é esse constrangimento decorrente da constatação de que o dito agora já havia sido dito há muito tempo. Que dizer? O autor que, registrando as próprias impressões, nota algo já notado anteriormente, em vez de se constranger por não ter sido o primeiro, ou não ter tomado conhecimento da fonte primária, — muitas vezes irrastreável, — deveria satisfazer-se de ter chegado à mesma conclusão através da percepção direta, alegrando-se como se alegram aqueles que acham no outro algo em comum.

Simultaneamente ao fato de que ao escritor…

Simultaneamente ao fato de que ao escritor, hoje, parece impossível esboçar uma linha sem o auxílio de um computador, isto é, sem esta maravilhosa ferramenta que possibilita o dispor de uma montanha de dados organizada, acessível e, sobretudo, na qual se pode pesquisar qualquer coisa em segundos, concorre o fato de que nem esta, nem qualquer automatização é bem aproveitada quando não se sabe realizar o processo sem ela. Quer dizer: é preciso aproveitar-se, mas não depender dela para que o trabalho seja feito; o que significa, em outras palavras, entender suas possibilidades e limitações.

São muitos os exemplos de belas obras iniciadas…

São muitos os exemplos de belas obras iniciadas apenas tardiamente, mas é raro encontrar um grande escritor que não se tenha aventurado na escrita bem antes de ser capaz de produzir algo de valor. Em verdade, o capacitar-se a fazê-lo é justamente praticar até que adquira o domínio da prática, é experimentar, errar e aprender. O que por isso não se adquire é a bagagem do estudo e da experiência; mas por isso, e só por isso, adquire-se a capacidade de escrever bem.

A grande obra literária não sai sem que haja…

Diz Ferreira de Castro, sobre a escrita de A selva:

Era das seis e meia às oito da noite, depois de haver estendido num divã, durante alguns minutos, a fadiga trazida, como um fato de chumbo, do magazine e do jornal, que me embrenhava na Amazónia. E nem todos os dias, porque a vida tinha ainda mais exigências e outras vezes eu regressava a casa tão exausto, tão saturado de papel em branco e de papel impresso, que me faltava disposição, frescura e forças para retomar a minha pena.

Este tipo de relato, para além de desmontar a romantização da escrita, é também mais uma evidência de que a grande obra literária não sai sem que haja uma motivação descomunal, uma necessidade absoluta e irracional de escrevê-la, que suplanta pela força todos os possíveis obstáculos. Tomar consciência do cenário descrito por Ferreira de Castro diante do romance finalizado nos inclina a creditá-lo a algum milagre. Mas, decerto, nas grandes obras há menos milagre do que essa violentíssima sensação de dever.